H@ VIDA DEPOIS DOS 40

...com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas...

Domingo, 28 de Junho de 2009

flashes

Como num flash inesperado, eu vi toda a poesia do mundo nas pétalas daquela rosa. A lágrima que rolou - não sei, - seria minha, seria da rosa, seria uma gota isolada caída dos olhos de Deus chorando as coisas criadas?!
Pensei no mundo, pensei na vida, pensei num pensamento sem fim e viajei perdidamente exasperado fazendo buscas interiores, das cores vivas ora esmaecidas, dos risos cristalinos ora reticentes, dos rostos mais lindos que iluminavam a vida da gente. Foi aí, num repente, como num flash inesperado eu vi... A imagem repentina feito uma seta certeira acerta a letra, a sílaba, a frase sorrateira que mergulha sob os sentidos e adentra o canto mais escondido onde se pode chorar enternecido olhando pétalas caídas.
E a imagem toi tão vívida e real que a impressão nunca se esvai e a rosa despetalada e as pétalas daquela rosa se tornam os meus versos, preenchem definitivamente meus universos com sua poesia escancarada...

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

madrugada

Apesar das nuvens cor de cinza e do ar úmido que penetra as entranhas até a medula, uma claridade alvissareira permite entrever o suave esplendor de um novo dia. Muitas vezes ouvi da boca de meus avós: não há bem que sempre dure e nem mal que nunca acabe. Se aproxima o momento de virar uma página, embora nos faltem algumas linhas a serem decifradas - na esperança de que as suas boas letras se confirmem - e para serem percorridas até o fim da madrugada...

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

ansiedades

Não sei direito se o mundo tem quatro cantos como às vezes se costuma dizer. Não sei sequer se há um único canto no mundo. Tenho ouvido muitos gemidos silenciosos e poucos risos genuínos. Tenho assistido tantas dores que até o meu sorriso costumeiro hoje está emudecido e o meu coração não quer alienar-se à quieta dor do meu irmão! Na sucessão dos fatos espero por um novo alvorecer que nos liberte dessa escuridão em pleno dia. A noite não demarca o tempo e o relógio soturno da madrugada insone parece disposto a não continuar dançando seus ponteiros na sucessão das horas, dos minutos, do tempo que falta para a nossa angústia terminar...

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

pequenos encantos

A finalidade desse canto é fazer dele uma reserva de encantamentos pessoais - tanto meus quanto dos demais. Presunção, alguns dirão. Não, disso não se trata. É porque o tempo passa e a ausência dos registros quase sempre decreta o esquecimento. Os meus encantos são muitos simples e nada grandiloquentes e quero me encantar com os momentos banais nos quais estive aqui rabiscando os sentimentos que geraram. Quero forçar-me a tecer registros sobre as circunstâncias, os fatos significativos ou insignificantes, importantes ou triviais. Quero também destilar alguma poesia a inspirar as vias dos raros transeuntes virtuais que se derem ao trabalho de passar por estes esboços marginais... Ouvi dizer que a escrita ganha autonomia ao escapar pelos dedos do autor. Que seja! Que meus garranchos desprovidos de grandeza cresçam ao olhar generoso da pequeníssima platéia que o vislumbra. Que a caprichosa junção de letras e palavras crie sentidos que provoquem no leitor alguma estima e empatia e ainda, se possível, o mesmo encantamento miúdo que desejam retratar...

Domingo, 17 de Maio de 2009

tempo tempo tempo

é temporão
é temporal
dias ensolarados
e noites de luar
o relógio pregado na parede
marcando o tempo
vida
morte
ressurreição esperada
e o nirvana
à madrugada
para sempre reine o sol
...

Domingo, 3 de Maio de 2009

ceticismo na prática

Às vezes é preciso alguma reação. Quando o sol ofusca a vista, quando enche a maré, quando a dúvida assalta a fé. Ninguém vive sem a vontade embora todos saibamos que a morte é certa - quanto a isto não há dúvida. O voluntário é livre e a liberdade é o mais essencial dos valores. Todas estas idéias se concatenavam em minha cabeça nesta manhã ensolarada quanto repentinamente soou a campainha do telefone. O número - desconhecido - atendo, não atendo? Deixo tocar até cair na caixa postal... Quando tentava retomar meus pensamentos o aparelho volta a tocar. Certa raiva assoma mas eu a contenho e atendo a chamada. Alô... alô... aqui é da Asas de Águia Turismo, o senhor é o titular desta linha? Sim, sou eu mesmo... Gostaríamos de informar que o senhor foi sorteado com uma viagem para o Rio de Janeiro com tudo pago e pode levar uma companhia. São 4 dias no feriado de Corpus Christi no All Day Hotel que fica nas proximidades da Tijuca. Vamos preencher uma rápida ficha cadastral... o senhor nos informa seus dados cic, rg, endereço, banco onde tem conta, empresa onde trabalha, uma referência comercial e outra pessoal... Imagino o tu tu tu tu tu tu tu tu tu do lado de lá quando desligo o telefone e deixo fora do gancho. Nesse mundo cético quem vai acreditar nessas "bondades comerciais"?!

Domingo, 12 de Abril de 2009

Feliz Páscoa!!!

Páscoa é passagem. Na Antiga Aliança consumada entre o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó com os israelitas a Páscoa foi a celebração da passagem libertadora do Mar Vermelho, da escravidão no Egito para a liberdade na Terra Prometida. Na Nova Aliança, a passagem do pecado para a graça, da morte para a ressurreição... Cristo - o Filho de Deus encarnado que assumiu em tudo a condição humana exceto o pecado - tendo morrido ressuscitou e ressuscitando deu-nos nova vida. Esse é o sentido básico da celebração pascal - a revolução drástica que destronou a morte e colocou em seu lugar a vida plena alcançada para nós por Jesus Cristo com o seu voluntário aniquilamento, paixão, morte de cruz e a vitória sobre a morte com a sua ressurreição.
Essa é a minha fé, assim o creio. Então a todos os eventuais transeuntes virtuais que circularem por aqui os meus votos de uma FELIZ PÁSCOA!!!

Domingo, 29 de Março de 2009

por um mundo melhor

A cada minuto nascem no mundo em torno de 260 pessoas e morrem 110. No próximo minuto, pois, a população mundial que já se aproxima de 7 bilhões de pessoas verá um incremento de 150 pessoas. Em uma hora teremos mais 9.000 habitantes na terra e, ao final de um dia inteiro, mais 216.000 pessoas povoarão o planeta. O problema demográfico que já se experimenta hoje tende a agravar-se no futuro, especialmente em virtude de que os recursos naturais são limitados mas a irresponsabilidade humana não tem limites. As autoridades governamentais conhecem, por exemplo, os riscos do efeito estufa em relação ao aquecimento global e os efeitos perversos que dele advém. Entretanto, não parecem preocupar-se e viabilizar soluções que tragam o reequilíbrio ecológico para o planeta, seus habitantes e para a natureza criada.
Todas as pessoas, individualmente, no entanto, podem efetivamente mudar para melhor ou para pior o próprio mundo e, por conseqüência, o mundo inteiro. Não quero perder a minha oportunidade de melhorar o mundo. E você?!


Fonte da informação sobre a evolução demográfica mundial:

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

avestruz

a mente prenhe
de versos mirabolantes
volteios de elefantes
nesses picadeiros tropicais
que interpelam o meu silêncio
e minha dormência pusilânime
às mazelas
dos cortiços e favelas
contrapontos doloridos
duma arquitetura desigual
entre esquálidos seres comprimidos
e folgados bandidos em black tie

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

fragilidade humana

No limite só posso dizer que não sei de onde vim e tampouco sei aonde vou. Quando lançava o meu olhar sobre os rochedos incrustrados nas montanhas da minha infância, um tremor percorria todo o meu ser tomado de espanto e admiração. Desde aqueles primevos dias de imberbe ingenuidade já me sentia perturbado e aturdido pela desproporção de mim e o magma em rocha exposto sobre os montes. Então fechava os olhos – e na densa escuridão que se formava, via as estrelas do mundo abissal em seu avesso e eu, aquele ser tão frágil no começo – agora ainda mais frágil que conheço um ínfimo de mim, do mundo, do bem e do mal...

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

vergonha e desgoverno

        Vivemos um tempo que torna difícil resistir à avalanche dos juízos superficiais. Condena-se o inocente e inocentam-se os culpados. A hipocrisia prevalece na denúncia “corajosa” ao ladrão de galinhas e no silêncio conivente frente ao roubo escancarado dos colarinhos brancos executivos e legislativos, frutos da má escolha que fazemos nas urnas. Nesse dilúvio de corrupção muitos canoeiros apenas lamentam não estar a bordo da nave transatlântica de malversação do erário.
        Os sistemas econômicos privilegiam as coisas em detrimento das pessoas e algumas poucas pessoas e nações dominam a maioria e exploram o planeta de forma predatória. Queimam as matas, poluem rios e oceanos e se devasta impunemente a natureza no que ainda sobrou de suas reservas em fauna e flora. Assiste-se, como espasmos dessa perversão geral, cataclismos naturais, mudanças climáticas e abalos sociais com os fenômenos da violência na cidade e no campo se espraiando assustadoramente. Quem ainda não sofreu diretamente ou ao menos não viu resquícios de sua ação deletéria ao derredor? Que família não tem um ente viciado em cocaína, crack, álcool ou maconha – ou uma pessoa querida escravizada por compulsões de sexo, jogo, comida?! Desestruturadas as famílias, os casamentos se dissolvem, as relações estáveis se desestabilizam, os relacionamentos se tornam descartáveis.
        No nível global, muitas nações guerreiam entre si e privilegiam em seus orçamentos o componente bélico em detrimento do saneamento básico, alimentação, saúde e educação das pessoas.
        Virá o apocalipse?!
        O que deixaremos de herança para as gerações futuras? A natureza devastada, a sociedade esgarçada, uma pátria de desmandos onde os mais aquinhoados devorarão os mais fracos ostentando um sorriso cínico?
        Quisera uma gota de otimismo a temperar esse momento deprimente mas o meu coração se aperta pensando no mundo que estamos deixando para os nossos descendentes.
        Mas – ressuscita o mago do otimismo que trago dentro de mim - quem sabe aconteça um milagre?! Quem sabe alguns políticos honestos despertem de seu sono hibernatório e furem o fundo do navio ao qual não conseguem mais dar rumo, fazendo-o perder o prumo e afundar. Quem sabe, então, começando aqui entre nós, feito uma Fênix ressurgida - desta vez das águas – se veja novamente o norte e o povo forte deste Brasil possa regenerar a nação envergonhada e desgovernada...

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

pele

a nossa pele
manto que esconde
ou que nos desvela
traz o paraíso
se não faltar juízo
em falsos mergulhos
nas águas do inferno...

Segunda-feira, 2 de Março de 2009

dura lex

ai de mim
se a mente não for forte
pois a carne é fraca
e sucumbe à morte
só a pedra dura
e não é mole não
dura lex
sed lex

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Quaresma

Quaresma é ciclo, deserto em travessia
mas do outro lado - vencida a cidadela,
a Terra Prometida!

Ao escaldante sol e fardo extenuante
delirios do cansaço e no poente deste olhar...
a linha do horizonte.

Confundem terra e céu, a dor suplício e gozo
e entre um dia e outro, a noite de repouso -
eterno além da vida.

Se um tédio enfastia nas fomes de quaresma
além do pão de cada dia, temos remédio do espírito,
celeste pão da eucaristia.

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

30 ANOS


           Me preparando pra esse dia ensolarado eu, de repente, olhei no espelho e vi uma criança já crescida. E li por trás do seu sorriso o risco iminente de cair um turbilhão de lágrimas contidas. Imagens se sucederam freneticamente nas lembranças desse tempo já vivido, e um balanço foi se desenhando com os números pulsantes de uma vida. Vislumbrei o rosto jovem dos meus pais de quando eu ainda engatinhava e recordei a pura alegria dos meus irmãos da infância feliz que eu ainda não sabia. Revi o encanto das brincadeiras da minha meninice e as monumentais algazarras entre os amigos da rua e dos tempos de escola. Recordei depois o meu olhar furtivo em busca das primeiras aventuras, os olhares trocados, os toques de mão, o primeiro beijo escondido e roubado e os arroubos daquelas sensações desconhecidas – quase um meu nirvana juvenil. Tanta efervescência, muitas lembranças e tantos grilos povoando a adolescência. Alguns e algumas trago camufladas até aqui... Mas o que seria da vida sem os encontros – sem os desencontros?! Confesso que cresci. E fiz os pactos dos amores que foram infinitos pelo tempo que duraram. Vi que era bonito amar assim e elaborei milhões de planos. E fiz mil coisas nestes dias de ventura. Eu quase me perdi. A vida foi abrindo as suas caixinhas de surpresas – boas, más, – algumas foram de extasiar e outras quase me mataram. Ganhei, perdi. Fui sorteado com uma fonte de sorrisos e acho que por isso não aprendi chorar. E distribuo risos com fartura fazendo o que é possível pra não ter choro à minha volta. Algumas vezes fracassei nessa empreitada e não consegui deter as lágrimas – eu mesmo fui varrido por elas, especialmente quando uma noite traiçoeira açoitou minha família e nos roubou o que havia de maior brilho. Uma jóia rara: irmão, amigo, filho... Mas fiquei sabendo por intermédio das estrelas que entre elas ele foi se instalar – Deus viu que para uma gema tão preciosa – estar ao lado Seu, no céu - era o melhor lugar. Agora é um anjo protetor – com nome de irmão – e ilumina a nossa casa com o seu olhar, o seu cuidado e o seu jeito amoroso de nos acompanhar. E ele nos diz que a vida deve continuar, que o tempo não para e nem pode parar...
           No lugar dos amores transitórios da juventude a vida me presenteou com o amor que veio pra ficar. E foi tanta doçura no saciar a fome dos meus beijos e abraços... Fincado em terra firme enfrentei e enfrentamos as ventanias, as chuvas torrenciais da vida, os medos, as tristezas, os conflitos naturais. Os que não venci sozinho, vencemos juntos – os que perdi, juntos não perdemos. E o amor não demora, no tempo certo traz os frutos da espera. E uma barriga se enfeitou de vida para embalar o fruto desse nosso amor. Quando me dei conta da paternidade que assumia – ah nesse dia eu chorei – chorei de alegria, chorei de espanto, chorei de encanto, chorei de amor... E tudo isso no meio do meu maior sorriso e se daqui pra frente em algum momento eu não sorrir, não é preciso – pois trago no meu ninho, nos meus braços de pai – um sorriso que veio do céu para inundar de alegria a nossa vida, um presente de Deus que nos faz a vida celebrar.
           E agora, o que será do amanhã?! Não sei... Mas sei que Deus está comigo e tem me carregado nos momentos de agonia e dor. E o sorriso da proteção divina jamais deixará de nos acompanhar - por isso quero celebrar com meus amigos, minha família, minha mulher - metade preciosa de mim, e a minha filha. Quero sorrir com todos e, se eu chorar, que seja de alegria, que seja de amor que tanto eu tenho recebido e tanto eu tenho para dar.

(Ps.: homenagem ao primo Adriano no seu 30º aniversário.)

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

garoa

chove com insistência
num derrame de gotas modorrentas
e as folhas molhadas
espargem brilhos ao redor
todos os sentidos preguiçosos
trabalham à meia luz
cheiros, sons e paladares
brotam da terra em cio
fazendo um torpor vazio
aquietar meus sinais...

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

parada

quem dera parasse o tempo
ao menos uma era inteira
e a gente então parisse
as correções das besteiras
e depois tudo prosseguisse
como se nada havido...

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

riso cristalino

se não houvesse um fosso
e a força insone do fracasso
em que trôpego tropeço no teu laço
e me desfaço em lamúrias cordiais
a despertar o teu sorriso iluminado
ao que me esqueço do começo
e baila a mente à doce melodia
do teu riso matinal...

Domingo, 4 de Janeiro de 2009

2009 boas promessas

Os meticulosos encontram a beleza escondida nas pequenas coisas, já os desleixados não enxergam sequer a beleza do universo. Há quem seja tão detalhista ao ponto de se perder nos detalhes e há os tão universalistas que não enxergam com definição nada que lhes esteja a um palmo do nariz. Há gente de todo jeito. Há pessoas como eu e você e todos nós temos algo de bom a oferecer. Muitos fecham as mãos e o coração e ficam como que petrificados em si mesmos. Felizes daqueles que conseguem se desprender dessa armadilha egoísta e fazem a mesma reviravolta da lagarta liberta do casulo ganhando cores e asas de borboleta prontas para alçar os mais belos vôos. A vida tem nuances e reveses, tem vitórias e fracassos. Sem altos e baixos a comemorar e lamentar não se constrói uma história, não se desenham superações. Todos temos lições a dar e a receber e a maior delas em todos os sentidos é a humildade - no fundo, no fundo, nenhum de nós é nada sem os outros ao nosso lado. Mas de tudo o que existiu e existirá o que há de maior é o amor, e o mais excelso é amar o amor, amar sem temor, espalhar prodigamente o amor porque amar é viver...

Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

estopim em chamas

qualquer que seja o desfecho
não nos faltem apetrechos
em cantos de sobreviver
que a hora seja lânguida
e a mente seja cândida
ao corpo desfalecer
num mergulho infinito
naquele lugar bonito
de sonhos e fantasias
seja no fim do ano
seja no fim de tudo
se locuplete a memória
num louco piscar de olhos
estopim do provisório
chama do eterno ser

Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

adeliana

a mãe foi trabalhar
e nunca que voltava
um dia
um mês
a eternidade
só olhando a serra verde
esperava esperava
naquelas tardes de chuva
eu morria de saudades...

Domingo, 16 de Novembro de 2008

Vó Iolanda (*10/11/1907 +16/11/2008)


Ela completou 101 anos no último dia 10 e seis dias depois foi-se embora pra fazer festa do lado de lá. Foi uma referência em minha vida e pensar na vó Iolanda é adentrar em lembranças de sorriso, alegria e celebração da vida. Por isso, não é um momento de lamentação o que a família vive - ela não aprovaria isso - é um momento de gratidão a Deus por nos ter dado essa jóia preciosa para estar conosco por tanto tempo. Ela sorriu vida afora, agora sorri na eternidade, e nós que aqui ficamos sorriremos de saudade...

Domingo, 2 de Novembro de 2008

bosques da alma

divagam memórias em suave brisa
permeando enredos com suas ondas calmas
quantos se foram e jamais voltaram
talvez nos aguardem sem ansiedades
mas oh que saudades
das vozes, sorrisos
fisionomias meigas
marcadas, contidas
retratos da vida
nos bosques da alma...

Domingo, 19 de Outubro de 2008

O que é bom, de verdade.

Palavras quase sempre são pronunciadas ao desejo de concretizar o abstrato ou de abstrair o concreto. As palavras que merecem ser ouvidas realmente fazem isso. As outras soam como ruídos inexpressivos e não se deve perder tempo em decifrá-las. Quando amamos escolhemos as palavras para acariciar a pessoa amada, quando odiamos desferimos as palavras feito setas tentando cravá-las no peito da pessoa alvo de nossa agressividade. Tais palavras assim desferidas geralmente ricocheteiam e voltam virulentas causando em nós mesmos as piores feridas. Não vale a pena o sentimento que as gera, não valem a pena palavras desta forma desferidas. Um bom conselho é cuidar-se, curar-se das feridas e esquecer, sem ódio, as pessoas que procuram transtornar a nossa vida... Só amar, verdadeiramente, vale a pena.

Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

momento

estático confuso e pragmático
sem concessões me deixo rebocar
flutuo incerto o rio caudaloso
verdadeiro tsunami deste mar
mas o movimento é nas entranhas
plácido lago na superfície do olhar
as velhas perguntas sem respostas
martelam insistem sem jamais calar
como quando quem onde porque
quantos erros cometidos
quantas lutas perdidas
quantas vezes ainda
esse momento
e o lamento
só...

Sábado, 4 de Outubro de 2008

reversos

vejo fantasias no âmago do real
vivo de desejos e ensejo passos
do vôo que só alço no campo imaginário
e aí aspiro o concreto no mais abstrato
fruto do contrato entre mim e o meu igual
que sou eu e o meu contrário do espelho
numa luta desigual
azáfama da vida
cumprida curtida fingida
sempre e nunca
em performances dissonantes
que revela ao próprio ser
o seu enigma vital
o que é
o que foi
o que será
ou não...

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

das mônadas

Complicado estudar filosofia já na puberdade da velhice. Definem-se na vida tantas certezas que viram pó quando se as cogita na órbita filosófica. Spinoza me fez pensar no tempo perdido da existência e agora estou avaliando alguns textos do Leibniz que, se entendi direito, afirmam que eu não passo de uma mônada. Depois de Descartes e o seu "Penso, logo existo" já não tenho mais certezas sobre muita coisa. E se apenas eu existir e tudo o mais for apenas imaginação?! Vai que nem mesmo eu exista e apenas esteja presente num sonho alheio! Sempre pensei ser meio louco, agora começo achar que não sou só meio...

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

tempo perdido

Meus neurônios se chocam e me deixam zangado com Spinoza porque para ele o tempo não existe. E eu perdendo um tempo enorme com algo que não existe. O que existe é a demora... Mas essa demora não significa que o tempo transcorre e sim que dura... É duro concordar, mas de fato o que o ponteiro do relógico marca não é o tempo e sim a duração do percurso da terra em torno do sol. 24 horas não é o tempo de um dia mas a sua duração. E eu aqui tentando me recompor... quanto tempo perdido!!!

Sábado, 13 de Setembro de 2008

água doce

Tá vendo aquele imenso rolo de fumaça e o enorme incêndio que consome a mata ressequida? Entretanto começou em minúscula fagulha, talvez, descuidadamente produzida. Contenha a chama antes do seu descontrole e não se consumirão em você todas as energias.
Tá vendo aquele jardim florido no quintal do seu vizinho? Ficou assim porque ele não se preocupou em ficar todo o tempo arrancando ervas daninhas, senão que também regou as suas belas flores.
Arranque as ervas daninhas que te envolvem e molhe a própria relva para que também o teu jardim viceje florido e encante os que te fazem companhia.
Não, esse não é um fórum de aconselhamento, com certeza, mas se água com adoçante não faz bem, é muito provável que também não faça mal e essas palavras aqui só foram arremessadas para o alto na tentativa de acertar e serenar a minha própria cabeça.

Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

sinfonia

Nas asas de uma sinfonia deixo-me arrastar sem saber dos próximos compassos. A intuição é minha companhia e comigo desliza sutil no imenso espaço aberto da imaginação. Movimentos suaves, íngremes, rústicos por vezes... um universo em expansão dentro de mim criando expectativas lúdicas de um gran-finale para essa melodia atemporal...

Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

fazendo valer a pena

Quem nunca teve dor de dentes?! Ou nunca apanhou um resfriado? O corpo padece dores físicas, a mente padece dores mentais e a alma desalmada sofre das dores de parto antes de gerar idéias novas capazes de fazer a vida valer a pena...

Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

dormência

A palavra amassa a massa cinzenta do crâneo sem brilho e o filho adota o pai imaginário que não teve, empalhado feito boneco de milho. É uma fase que não cabe numa frase e seu olhar dormente acorda num pingente dourado que o meticuloso anarquista comprou na feira hippie da praça da república. Sentado com o olhar esbugalhado, em êxtase o rapazola sorve um bagulho e rola sem saber pelas beiradas arranhadas se encharcando em delírios no fundo do poço onde em flashes redobrados ele esquece do seu pai adormecido na infindável paralela de dormentes sob os trilhos...

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

dúbios sentidos

O registro dos sentidos é dúbio. A audição tem sido pessimista mas minha visão, paladar e olfato podem se gabar. O tato está em cima do muro embora o gozo costume ser bastante tátil - afinal a pele é o maior dos órgãos humanos. Na soma aritmética de todos os quesitos sensíveis e os intelectivos me dou conta que sou um irremediável otimista. Mas, pensando bem, não é melhor assim?!

Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

calvário

se revelasse todos os segredos
o que seria do encanto que nos atrai?
a curiosidade esmiúça o ego
o alter e o superego
e quando já nada mais resta
dissecado aos teus pés
te restará o chute solitário
e o calvário sem fim
um pra você
outro pra mim...

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

como e porquê

pressiono os caracteres
distribuídos no teclado
tentando expressar
meus universos variados

retrato num espelho tosco
nuances do meu rosto desfocado
brinco comigo pra falar de mim
do pouco que conheço

sei o que ontem era
e o que hoje ainda sou
mas amanhã o que serei?
como?!
quando?!
e porquê?!

Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

caminhada

        Urgências e malemolências se alternam na rotina. Um plano bem elaborado ou intuitivo é seguido por todos e cada um. Não há como evitar. Até aquelas pessoas mais desorganizadas sabem quais passos deveriam dar para alcançar tal ou qual objetivo. Se a pessoa dá ou não aquele passo já não vem ao caso. Olhando ao redor vemos pessoas com ingredientes e predicados vários que parecem patinar apesar do esforço e outras que aparentemente não tem os mesmos recursos mas nadam de braçada na sua trajetória de vida. Minha tese para explicar estas aparentes incongruências se relaciona ao foco de cada um. Quem tem um olhar alçado para os seus objetivos imediatos e a médio e longo prazo sabe onde quer chegar, poupa energias e encontra atalhos para abreviar sua conquista das metas almejadas. Quem vive cabisbaixo tentando decifrar o próprio umbigo navega em círculos, sem rumo e às vezes na contramão. É preciso enxergar ao menos tres pontos do caminho: aquele do próximo passo, aquele mais longínquo que a vista alcança e aquele que supera a linha do infinito e é visto com o olhar da fé... Só a consciência dos passos no caminho, o olhar atento e o coração embevecido oferecem ao caminhante a força e a certeza de chegar.

Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

monólogo refletido

        E aí, tudo bem? Sério, tem horas que bate um tédio daqueles. Mas tudo certinho, fora alguns detalhes que não pesam e nem vale a pena reclamar. Uma pomadinha, um sorriso, um "me desculpe" e tudo bem. Mas a finitude da condição humana, certa compulsão consumista, as dúvidas metafísicas - tudo isso - fazem com que um cidadão se sinta as vezes engolido por um imenso ponto de interrogação. ¿O que será do amanhã? Do ontem não há muito o que falar porque já passou e do hoje é preciso esperar algumas horas para a gente se pronunciar que ninguém é de ferro pra responder algo assim de bate pronto. Por falar nisso, você percebeu como anda o tempo ultimamente? Instável feito bunda de neném. Mas isso é balela porque há uns quarenta anos eu já ouvia essa conversa. No fundo, no fundo, nada de muito importante muda na vida, exceto a fisionomia que, inclemente, o espelho esfrega na cara da gente...

Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

orvalho


fale por mim
furtivo orvalho
expresse meu silêncio
revele sob a florada
futura morada
sob as lápides
cobertas de pétalas...

Domingo, 3 de Agosto de 2008

maturação

        Tenho alguma dificuldade com o foco. Atento para o conjunto e não vejo a parte, me fixo na parte e perco de vista o conjunto. Dou passos a esmo algumas vezes e quase sempre conto com o acaso para que as coisas se acertem. Geralmente se acertam. Um pouco porque sou sereno e paciente. Até a minha ansiedade que me devorava no passado perdeu muito de sua força e já me sinto capaz de esperar os acontecimentos se desenrolarem sem precipitá-los como dantes o faria. Não me sinto mais criança e também ainda não me sinto velho. Mas é conveniente me dar conta que os anos se passaram e às vezes parecem acelerar-se... O que é mais relevante é o fato de que me tornei mais tolerante, mais hábil no trato e mais capaz de dosar a vida com humor - é muito bom aprender a rir das próprias falhas e bobagens. Deve ser a maturidade rondando. Sempre achei, mas agora tenho convicção: quase sempre é possível administar a vida de forma a torná-la agradável e boa. Procurar viver bem não tem preço e pode me incluir nessa.

Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

fim de julho

        Olho sem pressa pela vidraça da janela e vejo a tarde dourada se espreguiçando. Árvores altas com folhas dançando à brisa desse árido inverno. Tudo é lento exceto meus pensamentos que me levam e trazem para múltiplos tempos e lugares já vividos. Tento imaginar algo que virá sem saber que espaço ocuparei dentro de cinco anos. Sobrevivendo até lá estarei então às vésperas dos sessenta, algo para mim difícil de imaginar. Ainda ontem eu era apenas um rapaz latino americano feito aquele imortalizado na voz de Belchior. Vindo do interior, sem dinheiro no bolso... Sereno, enfrento as melancolias sazonais inexplicadas. De vez em quando, nestes tempos, me engole uma compulsão consumista na vã tentativa de preencher certos vazios. Algumas vezes me ressinto de abraços ausentes conquanto tenha outros aconchegos no presente. A vida é boa, é mansa, é bela feito um lago rodeado de árvores centenárias. Tranqüilidade demais atrai o tédio e o meu remédio é pensar acelerado, sonhar acordado e nada mais... Tenho certeza que amanhã todas as cores recobram seu natural brilho.

Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

viagem

capta a mente
ilusões em lotes
flashes de antiquário
que arremetem dramas
contra as paredes
desacordo inteiro
e nego ao travesseiro
certos pesadelos
frutos do relógio
e do furor do espelho
à finitude incontida
é o tempo que passa
muito aquém do nada
espaço que resta
nos últimos quartos
na espiral da vida...

Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

lar

Sagrada liberdade
De fazer penar
Pois quisera tanto
Andar lado a lado
Mas por dom ou fado
A escolha é livre
Se pode querer
Também recusar
Ou quem sabe um dia
Reconsiderar...
E voltar pra casa
O melhor lugar!

Terça-feira, 22 de Julho de 2008

        bobagens sazonais

          Esse ano bissexto acrescenta e tira coisas da minha cabeça, especialmente cabelos que ganham brancura e perdem quantidade, mas as mudanças qualitativas são as únicas que contam. Nesses 366 dias em andamento, - dos que já transcorreram, - grande parte estiveram envoltos em tépida preguiça. Apesar disso meus pneus tem rodado mais que a média e os pedágios tem auferido lucro no meu prejuízo. Melhor nem reclamar porque as estradas andam boas... prefiro as tarifas das concessionárias de rodovias que o desgaste na máquina e os riscos de acidentes que se potencializam em estradas ruins. Alguém ao meu lado sorri dessas linhas percebendo claramente a enrolação. Explico. É que já fazem dez dias desde que estive por aqui rabiscando alguma bobagem e precisava registrar algo para que a posteridade não se ressinta. Certamente a audiência se esvai com esses vazios literários - oh pretensão!!! Uma coisa que tem me chamado a atenção e causado algum desconforto é a secura desses dias. Amanhã fazem 30 dias desde que São Paulo se molhou com parca chuva. Minha pele, meu nariz, meus olhos estão pra lá de ressequidos e uma tosse rouca expressa o ardor que se instala na garganta em dias assim. Julho se aproxima do final e logo logo se reiniciam as aulas do segundo semestre letivo. A faculdade esse ano esteve mais exigente que nos dois anos anteriores. Fico cansado com a rotina acadêmica... menos com os estudos e mais com os trajetos diários e a hora avançada que consigo ir pra cama - algo ruim para alguém bom bom de cama como eu... deito e durmo feito um anjo roncador. Bem, ninguém diga que eu não seja mais capaz de escrever alguma coisa no blog... claro que são besteiras, mas bobagens também se escreve. E tenho escrito!

Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

preguiça

A preguiça é pecado capital e eu juro que preciso me encontrar de novo em meu interior. E vou. A família pequena se multiplica nas festas de casamento. Primos, primas, tios, sobrinhos, afilhados, amigos... ah como é bom o clima do interior. Embora o provincianismo tenha seus defeitos e caprichos, não se pode negar a beleza natural, o encantamento das paisagens conhecidas desde sempre. Os tons dourados do sol generoso e do céu sem núvens. Noites frias e o quentão que nos aquece em noites julhinas. Porque tanto tempo sem postar?! Preguiça...

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Folha seca

           E a folha seca que o vento faz rodopiar... terá alguma serventia?! Ninguém se dá conta, ninguém dá valor até que os olhos façam contato com sua trajetória imprevisível e se encante com a evolução da sua dança inútil. Descontrole. Um descontrole, entretanto, sem estresse porque a folha seca nem se preocupa com seu destino... Talvez eu seja feito a folha seca vida afora em certos papéis que assumo ou que me assumem. Folha seca. Quem nunca se sentiu mera folha seca volátil arrastada pelo vento?! Quem disser não que guarde as suas pedras porque não pode existir nada mais inútil que a tentativa de apedrejar uma folha seca em seus volteios sem sentido...