H@ VIDA DEPOIS DOS 40

...com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas...
(pelo menos em dias de banho)

Domingo, 4 de Janeiro de 2009

2009 boas promessas

Os meticulosos encontram a beleza escondida nas pequenas coisas, já os desleixados não enxergam sequer a beleza do universo. Há quem seja tão detalhista ao ponto de se perder nos detalhes e há os tão universalistas que não enxergam com definição nada que lhes esteja a um palmo do nariz. Há gente de todo jeito. Há pessoas como eu e você e todos nós temos algo de bom a oferecer. Muitos fecham as mãos e o coração e ficam como que petrificados em si mesmos. Felizes daqueles que conseguem se desprender dessa armadilha egoísta e fazem a mesma reviravolta da lagarta liberta do casulo ganhando cores e asas de borboleta prontas para alçar os mais belos vôos. A vida tem nuances e reveses, tem vitórias e fracassos. Sem altos e baixos a comemorar e lamentar não se constrói uma história, não se desenham superações. Todos temos lições a dar e a receber e a maior delas em todos os sentidos é a humildade - no fundo, no fundo, nenhum de nós é nada sem os outros ao nosso lado. Mas de tudo o que existiu e existirá o que há de maior é o amor, e o mais excelso é amar o amor, amar sem temor, espalhar prodigamente o amor porque amar é viver...

Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

estopim em chamas

qualquer que seja o desfecho
não nos faltem apetrechos
em cantos de sobreviver
que a hora seja lânguida
e a mente seja cândida
ao corpo desfalecer
num mergulho infinito
naquele lugar bonito
de sonhos e fantasias
seja no fim do ano
seja no fim de tudo
se locuplete a memória
num louco piscar de olhos
estopim do provisório
chama do eterno ser

Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

adeliana

a mãe foi trabalhar
e nunca que voltava
um dia
um mês
a eternidade
só olhando a serra verde
esperava esperava
naquelas tardes de chuva
eu morria de saudades...

Domingo, 16 de Novembro de 2008

Vó Iolanda (*10/11/1907 +16/11/2008)


Ela completou 101 anos no último dia 10 e seis dias depois foi-se embora pra fazer festa do lado de lá. Foi uma referência em minha vida e pensar na vó Iolanda é adentrar em lembranças de sorriso, alegria e celebração da vida. Por isso, não é um momento de lamentação o que a família vive - ela não aprovaria isso - é um momento de gratidão a Deus por nos ter dado essa jóia preciosa para estar conosco por tanto tempo. Ela sorriu vida afora, agora sorri na eternidade, e nós que aqui ficamos sorriremos de saudade...

Domingo, 2 de Novembro de 2008

bosques da alma

divagam memórias em suave brisa
permeando enredos com suas ondas calmas
quantos se foram e jamais voltaram
talvez nos aguardem sem ansiedades
mas oh que saudades
das vozes, sorrisos
fisionomias meigas
marcadas, contidas
retratos da vida
nos bosques da alma...

Domingo, 19 de Outubro de 2008

O que é bom, de verdade.

Palavras quase sempre são pronunciadas ao desejo de concretizar o abstrato ou de abstrair o concreto. As palavras que merecem ser ouvidas realmente fazem isso. As outras soam como ruídos inexpressivos e não se deve perder tempo em decifrá-las. Quando amamos escolhemos as palavras para acariciar a pessoa amada, quando odiamos desferimos as palavras feito setas tentando cravá-las no peito da pessoa alvo de nossa agressividade. Tais palavras assim desferidas geralmente ricocheteiam e voltam virulentas causando em nós mesmos as piores feridas. Não vale a pena o sentimento que as gera, não valem a pena palavras desta forma desferidas. Um bom conselho é cuidar-se, curar-se das feridas e esquecer, sem ódio, as pessoas que procuram transtornar a nossa vida... Só amar, verdadeiramente, vale a pena.

Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

momento

estático confuso e pragmático
sem concessões me deixo rebocar
flutuo incerto o rio caudaloso
verdadeiro tsunami deste mar
mas o movimento é nas entranhas
plácido lago na superfície do olhar
as velhas perguntas sem respostas
martelam insistem sem jamais calar
como quando quem onde porque
quantos erros cometidos
quantas lutas perdidas
quantas vezes ainda
esse momento
e o lamento
só...

Sábado, 4 de Outubro de 2008

reversos

vejo fantasias no âmago do real
vivo de desejos e ensejo passos
do vôo que só alço no campo imaginário
e aí aspiro o concreto no mais abstrato
fruto do contrato entre mim e o meu igual
que sou eu e o meu contrário do espelho
numa luta desigual
azáfama da vida
cumprida curtida fingida
sempre e nunca
em performances dissonantes
que revela ao próprio ser
o seu enigma vital
o que é
o que foi
o que será
ou não...

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

das mônadas

Complicado estudar filosofia já na puberdade da velhice. Definem-se na vida tantas certezas que viram pó quando se as cogita na órbita filosófica. Spinoza me fez pensar no tempo perdido da existência e agora estou avaliando alguns textos do Leibniz que, se entendi direito, afirmam que eu não passo de uma mônada. Depois de Descartes e o seu "Penso, logo existo" já não tenho mais certezas sobre muita coisa. E se apenas eu existir e tudo o mais for apenas imaginação?! Vai que nem mesmo eu exista e apenas esteja presente num sonho alheio! Sempre pensei ser meio louco, agora começo achar que não sou só meio...

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

tempo perdido

Meus neurônios se chocam e me deixam zangado com Spinoza porque para ele o tempo não existe. E eu perdendo um tempo enorme com algo que não existe. O que existe é a demora... Mas essa demora não significa que o tempo transcorre e sim que dura... É duro concordar, mas de fato o que o ponteiro do relógico marca não é o tempo e sim a duração do percurso da terra em torno do sol. 24 horas não é o tempo de um dia mas a sua duração. E eu aqui tentando me recompor... quanto tempo perdido!!!

Sábado, 13 de Setembro de 2008

água doce

Tá vendo aquele imenso rolo de fumaça e o enorme incêndio que consome a mata ressequida? Entretanto começou em minúscula fagulha, talvez, descuidadamente produzida. Contenha a chama antes do seu descontrole e não se consumirão em você todas as energias.
Tá vendo aquele jardim florido no quintal do seu vizinho? Ficou assim porque ele não se preocupou em ficar todo o tempo arrancando ervas daninhas, senão que também regou as suas belas flores.
Arranque as ervas daninhas que te envolvem e molhe a própria relva para que também o teu jardim viceje florido e encante os que te fazem companhia.
Não, esse não é um fórum de aconselhamento, com certeza, mas se água com adoçante não faz bem, é muito provável que também não faça mal e essas palavras aqui só foram arremessadas para o alto na tentativa de acertar e serenar a minha própria cabeça.

Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

sinfonia

Nas asas de uma sinfonia deixo-me arrastar sem saber dos próximos compassos. A intuição é minha companhia e comigo desliza sutil no imenso espaço aberto da imaginação. Movimentos suaves, íngremes, rústicos por vezes... um universo em expansão dentro de mim criando expectativas lúdicas de um gran-finale para essa melodia atemporal...

Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

fazendo valer a pena

Quem nunca teve dor de dentes?! Ou nunca apanhou um resfriado? O corpo padece dores físicas, a mente padece dores mentais e a alma desalmada sofre das dores de parto antes de gerar idéias novas capazes de fazer a vida valer a pena...

Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

dormência

A palavra amassa a massa cinzenta do crâneo sem brilho e o filho adota o pai imaginário que não teve, empalhado feito boneco de milho. É uma fase que não cabe numa frase e seu olhar dormente acorda num pingente dourado que o meticuloso anarquista comprou na feira hippie da praça da república. Sentado com o olhar esbugalhado, em êxtase o rapazola sorve um bagulho e rola sem saber pelas beiradas arranhadas se encharcando em delírios no fundo do poço onde em flashes redobrados ele esquece do seu pai adormecido na infindável paralela de dormentes sob os trilhos...

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

dúbios sentidos

O registro dos sentidos é dúbio. A audição tem sido pessimista mas minha visão, paladar e olfato podem se gabar. O tato está em cima do muro embora o gozo costume ser bastante tátil - afinal a pele é o maior dos órgãos humanos. Na soma aritmética de todos os quesitos sensíveis e os intelectivos me dou conta que sou um irremediável otimista. Mas, pensando bem, não é melhor assim?!

Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

calvário

se revelasse todos os segredos
o que seria do encanto que nos atrai?
a curiosidade esmiúça o ego
o alter e o superego
e quando já nada mais resta
dissecado aos teus pés
te restará o chute solitário
e o calvário sem fim
um pra você
outro pra mim...

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

como e porquê

pressiono os caracteres
distribuídos no teclado
tentando expressar
meus universos variados

retrato num espelho tosco
nuances do meu rosto desfocado
brinco comigo pra falar de mim
do pouco que conheço

sei o que ontem era
e o que hoje ainda sou
mas amanhã o que serei?
como?!
quando?!
e porquê?!

Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

caminhada

        Urgências e malemolências se alternam na rotina. Um plano bem elaborado ou intuitivo é seguido por todos e cada um. Não há como evitar. Até aquelas pessoas mais desorganizadas sabem quais passos deveriam dar para alcançar tal ou qual objetivo. Se a pessoa dá ou não aquele passo já não vem ao caso. Olhando ao redor vemos pessoas com ingredientes e predicados vários que parecem patinar apesar do esforço e outras que aparentemente não tem os mesmos recursos mas nadam de braçada na sua trajetória de vida. Minha tese para explicar estas aparentes incongruências se relaciona ao foco de cada um. Quem tem um olhar alçado para os seus objetivos imediatos e a médio e longo prazo sabe onde quer chegar, poupa energias e encontra atalhos para abreviar sua conquista das metas almejadas. Quem vive cabisbaixo tentando decifrar o próprio umbigo navega em círculos, sem rumo e às vezes na contramão. É preciso enxergar ao menos tres pontos do caminho: aquele do próximo passo, aquele mais longínquo que a vista alcança e aquele que supera a linha do infinito e é visto com o olhar da fé... Só a consciência dos passos no caminho, o olhar atento e o coração embevecido oferecem ao caminhante a força e a certeza de chegar.

Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

monólogo refletido

        E aí, tudo bem? Sério, tem horas que bate um tédio daqueles. Mas tudo certinho, fora alguns detalhes que não pesam e nem vale a pena reclamar. Uma pomadinha, um sorriso, um "me desculpe" e tudo bem. Mas a finitude da condição humana, certa compulsão consumista, as dúvidas metafísicas - tudo isso - fazem com que um cidadão se sinta as vezes engolido por um imenso ponto de interrogação. ¿O que será do amanhã? Do ontem não há muito o que falar porque já passou e do hoje é preciso esperar algumas horas para a gente se pronunciar que ninguém é de ferro pra responder algo assim de bate pronto. Por falar nisso, você percebeu como anda o tempo ultimamente? Instável feito bunda de neném. Mas isso é balela porque há uns quarenta anos eu já ouvia essa conversa. No fundo, no fundo, nada de muito importante muda na vida, exceto a fisionomia que, inclemente, o espelho esfrega na cara da gente...

Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

orvalho


fale por mim
furtivo orvalho
expresse meu silêncio
revele sob a florada
futura morada
sob as lápides
cobertas de pétalas...

Domingo, 3 de Agosto de 2008

maturação

        Tenho alguma dificuldade com o foco. Atento para o conjunto e não vejo a parte, me fixo na parte e perco de vista o conjunto. Dou passos a esmo algumas vezes e quase sempre conto com o acaso para que as coisas se acertem. Geralmente se acertam. Um pouco porque sou sereno e paciente. Até a minha ansiedade que me devorava no passado perdeu muito de sua força e já me sinto capaz de esperar os acontecimentos se desenrolarem sem precipitá-los como dantes o faria. Não me sinto mais criança e também ainda não me sinto velho. Mas é conveniente me dar conta que os anos se passaram e às vezes parecem acelerar-se... O que é mais relevante é o fato de que me tornei mais tolerante, mais hábil no trato e mais capaz de dosar a vida com humor - é muito bom aprender a rir das próprias falhas e bobagens. Deve ser a maturidade rondando. Sempre achei, mas agora tenho convicção: quase sempre é possível administar a vida de forma a torná-la agradável e boa. Procurar viver bem não tem preço e pode me incluir nessa.

Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

fim de julho

        Olho sem pressa pela vidraça da janela e vejo a tarde dourada se espreguiçando. Árvores altas com folhas dançando à brisa desse árido inverno. Tudo é lento exceto meus pensamentos que me levam e trazem para múltiplos tempos e lugares já vividos. Tento imaginar algo que virá sem saber que espaço ocuparei dentro de cinco anos. Sobrevivendo até lá estarei então às vésperas dos sessenta, algo para mim difícil de imaginar. Ainda ontem eu era apenas um rapaz latino americano feito aquele imortalizado na voz de Belchior. Vindo do interior, sem dinheiro no bolso... Sereno, enfrento as melancolias sazonais inexplicadas. De vez em quando, nestes tempos, me engole uma compulsão consumista na vã tentativa de preencher certos vazios. Algumas vezes me ressinto de abraços ausentes conquanto tenha outros aconchegos no presente. A vida é boa, é mansa, é bela feito um lago rodeado de árvores centenárias. Tranqüilidade demais atrai o tédio e o meu remédio é pensar acelerado, sonhar acordado e nada mais... Tenho certeza que amanhã todas as cores recobram seu natural brilho.

Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

viagem

capta a mente
ilusões em lotes
flashes de antiquário
que arremetem dramas
contra as paredes
desacordo inteiro
e nego ao travesseiro
certos pesadelos
frutos do relógio
e do furor do espelho
à finitude incontida
é o tempo que passa
muito aquém do nada
espaço que resta
nos últimos quartos
na espiral da vida...

Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

lar

Sagrada liberdade
De fazer penar
Pois quisera tanto
Andar lado a lado
Mas por dom ou fado
A escolha é livre
Se pode querer
Também recusar
Ou quem sabe um dia
Reconsiderar...
E voltar pra casa
O melhor lugar!

Terça-feira, 22 de Julho de 2008

        bobagens sazonais

          Esse ano bissexto acrescenta e tira coisas da minha cabeça, especialmente cabelos que ganham brancura e perdem quantidade, mas as mudanças qualitativas são as únicas que contam. Nesses 366 dias em andamento, - dos que já transcorreram, - grande parte estiveram envoltos em tépida preguiça. Apesar disso meus pneus tem rodado mais que a média e os pedágios tem auferido lucro no meu prejuízo. Melhor nem reclamar porque as estradas andam boas... prefiro as tarifas das concessionárias de rodovias que o desgaste na máquina e os riscos de acidentes que se potencializam em estradas ruins. Alguém ao meu lado sorri dessas linhas percebendo claramente a enrolação. Explico. É que já fazem dez dias desde que estive por aqui rabiscando alguma bobagem e precisava registrar algo para que a posteridade não se ressinta. Certamente a audiência se esvai com esses vazios literários - oh pretensão!!! Uma coisa que tem me chamado a atenção e causado algum desconforto é a secura desses dias. Amanhã fazem 30 dias desde que São Paulo se molhou com parca chuva. Minha pele, meu nariz, meus olhos estão pra lá de ressequidos e uma tosse rouca expressa o ardor que se instala na garganta em dias assim. Julho se aproxima do final e logo logo se reiniciam as aulas do segundo semestre letivo. A faculdade esse ano esteve mais exigente que nos dois anos anteriores. Fico cansado com a rotina acadêmica... menos com os estudos e mais com os trajetos diários e a hora avançada que consigo ir pra cama - algo ruim para alguém bom bom de cama como eu... deito e durmo feito um anjo roncador. Bem, ninguém diga que eu não seja mais capaz de escrever alguma coisa no blog... claro que são besteiras, mas bobagens também se escreve. E tenho escrito!

Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

preguiça

A preguiça é pecado capital e eu juro que preciso me encontrar de novo em meu interior. E vou. A família pequena se multiplica nas festas de casamento. Primos, primas, tios, sobrinhos, afilhados, amigos... ah como é bom o clima do interior. Embora o provincianismo tenha seus defeitos e caprichos, não se pode negar a beleza natural, o encantamento das paisagens conhecidas desde sempre. Os tons dourados do sol generoso e do céu sem núvens. Noites frias e o quentão que nos aquece em noites julhinas. Porque tanto tempo sem postar?! Preguiça...

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Folha seca

           E a folha seca que o vento faz rodopiar... terá alguma serventia?! Ninguém se dá conta, ninguém dá valor até que os olhos façam contato com sua trajetória imprevisível e se encante com a evolução da sua dança inútil. Descontrole. Um descontrole, entretanto, sem estresse porque a folha seca nem se preocupa com seu destino... Talvez eu seja feito a folha seca vida afora em certos papéis que assumo ou que me assumem. Folha seca. Quem nunca se sentiu mera folha seca volátil arrastada pelo vento?! Quem disser não que guarde as suas pedras porque não pode existir nada mais inútil que a tentativa de apedrejar uma folha seca em seus volteios sem sentido...

Terça-feira, 24 de Junho de 2008

São João

          Fecho os olhos e mergulho nas memórias. Aromas, paladares, imagens e sons tomam conta de um momento chamado agora que busca um outro agora já vivido no passado. Não se trata de saudosismo - é só saudade. Saudade de amar daquele jeito juvenil capaz de entregas sem limites, de sonhar sobre brasas que aquecem sem queimar. Noites frias juninas do folclore, dos balões, noites frias de fogueiras, pinhões, batata doce e quentão. E o mais bonito de tudo, aquele sorriso brejeiro de indumentária caipira nas noites de São João...


(fonte: http://198.106.110.30/noticias/sao_joao_certo_maior1.jpg)

 Gilberto Gil - Viva São João

Sábado, 21 de Junho de 2008

Até quem devia prender agora está roubando!!!

Eu não resisti a reproduzir o texto que encontrei no blog
Cerveja, Chapéu e Cuíca do Hugo Henrique.

"É ladrao que não acaba mais" ( Bezerra da Silva )

Quando Cabral aqui chegou
E semeou sua semente
Naturalmente começou
A lapidação do ambiente
Roubaram o ouro, roubaram o pau
Pra ficar legal, ainda tiraram o couro
Do povo dessa terra original
E só deixaram a má semente
Presente de Grego
Que logo se proliferou
E originou a nossa gente

É ladrão que não acaba mais
Tem ladrão que não acaba mais
Você vê ladrão quando olha pra frente
Você vê ladrão quando olha pra trás

E, a terra boa, mais o povo continua escravizado
Os direitos são os mesmos
Desde os séculos passados
O marajá, ele só anda engravatado
Não trabalha, não faz nada
Mas ta sempre endinheirado
Se entrar no supermercado...Você é roubado
E se andar despreocupado...Você é roubado
E se pegar no ponto errado...Você é roubado
E também se votar pra deputado...Você é roubado
Certo! Tem sempre 171 armando fria
Tem ladrão lá no congresso, na fila da padaria
Ladrão que rouba de noite, ladrão que rouba de dia
Dentro da delegacia, ninguém entendia a maior confusão
O doutor delegado grampeou todo mundo
Porque o ladrão roubou outro ladrão

É ladrão que não acaba mais
Tem ladrão que não acaba mais
Você vê ladrão quando olha pra frente
Você vê ladrão quando olha pra trás


Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

ilhado no tempo

Hoje é a minha ilha. A mesma ilha que, no entanto, se faz nova a cada dia. Único solo concreto entre o ontem e o amanhã. Podia ter feito melhor nesse dia, podia não ter errado tanto, podia tantas coisas... mas o dia ainda não terminou e alguma coisa boa ainda há por fazer antes que chegue ao fim. Se não fizer, - não posso me esquecer, - o amanhã vai virar hoje e daí terei todo um novo dia para fazer direito o que hoje não foi feito...

Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

espoletas

pariu-se o verso
à minha revelia
fruto da fantasia
sem dono
que não abdica ao trono
desta ironia
meu pecado é consentir
que o traço revele
o passo...
rumo ao cadafalso
ou a afronta gratuita
à alça de mira
duma arma inútil
tiro de espoleta
pirotecnia...

Domingo, 15 de Junho de 2008

levitação

Se eu tivesse asas hoje seria um daqueles dias feitos pra voar. Se eu fosse piloto, certamente haveria de justificar a profissão. Mesmo assim, não tendo asas e nem sendo piloto, meu corpo parece levitar e, de súbito, pareço transgredir a lei da gravidade... perguntada a razão, direi que uma especial não há... apenas o gosto bom de uma manhã dominical ensolarada e uma certeza tênue de estar no lugar certo, do jeito certo e no espaço adequado para ser quem sempre fui. Como aquele conhecido exemplo da água que toma a forma do jarro ou do jarro que molda o formato que a água nele adota... ambos se configurando mutuamente. Creio que estudar filosofia me tem feito bem e creio que estudar teologia me fará ainda um bem maior. Contudo, só o tempo para corroborar essa minha expectativa em grau otimista. Até lá, - ou ao menos por agora, - vou me permitir esse suave flutuar...

Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

brumas

quem sabe seja o arauto
de uma mensagem cifrada
enigma de vida
pois a morte é o norte
e o sul de cada dia
o sentimento é triste
vácuo frio em agonia
no piso úmido desta nave
só os tímidos rastros
de passos escondidos
portal que não se fecha
coração que não se abre
domesticado nesta jaula
procurando entre as grades
o brilho lunar da melancolia...

Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

pétalas caladas

Hoje não vou falar das flores que estão adormecidas. Não vou falar do clima frio e molhado. Não vou falar das babaquices da política tupiniquim. Nem vou falar de mim. Pensando bem, hoje simplesmente não vou falar... Quem dera, ao menos, que algum ouvido alucinado - tomado de uma sensibilidade súbita e aguçada - ouvisse as entrelinhas desse ensurdecedor silêncio!

Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Aroeira

Ninguém sabia a razão do apelido, talvez só ele mesmo o soubesse. Aroeira. Um velho negro legítimo e forte que jamais se sentara numa daquelas carteiras escolares meticulosamente fabricadas por suas mãos calejadas. Nada era seu, a madeira, o serrote, o martelo, a grosa, pregos e parafusos, a bancada da marcenaria. Assim falando, entretanto, se poderia imaginar uma fábrica de móveis. Nada disso, era apenas um barracão abandonado e lá num canto cuidado - o único lugar efetivamente cuidado do barracão, aquelas tralhas bem antiquadas, embora os equipamentos de mão como serrote, martelo, arco de pua e outros estivessem sempre limpos e brilhantes que dava gosto ver. Juvêncio o dono de tudo, desde o barracão até as tachinhas de aço, - diversas vezes oferecera a velha marcenaria ao Aroeira. Mas que nada... ele dava um baita de um sorriso banguela e dizia que não precisava coisa alguma... só que o deixassem trabalhar na fabricação e no conserto das carteiras da escola onde seus netos estudavam. Na verdade ali estudaram seus nove filhos e até sua mulher - dona Chica - fizera Mobral e se alfabetizara depois de idosa. Aroeira pregava seus pregos, apertava seus parafusos, serrava suas peças de madeira, montava as carteiras e as entregava no grupo escolar. Dinheiro nunca quis, se contentava com o muito obrigado do diretor, o professor Vitalino Cabral. Bastava o salário mínimo da aposentadoria que o Mastroiani da farmácia havia conseguido para ele com seu amigo do escritório de advocacia - o único do vilarejo. O dr. Mendes não se fizera de rogado ao pedido do amigo farmacêutico, afinal suas tres meninas haviam feito intensivo uso das carteiras fabricadas pelo velho Aroeira. E olha que foram muitos anos somados de escola. Uma era arquiteta, outra professora e a terceira jornalista na capital. Bem, mas isso nem vem tanto ao caso. O foco aqui é o Aroeira. E para encurar a história, motivo desses garranchos, a última carteira em fabricação não chegou a ser concluída. Aroeira ali rígido, sentado na carteira sem acabamento, parecia experimentá-la com aprovação. Jorge, seu neto de 8 anos ali ao seu lado chamava-o com insistência. Vovô! Vovô! Acorda vovô! Mas qual... Aroeira viajava a bordo de sua última carteira... Daqui um tempo os estudantes do grupo escolar Dr Barros Varella Pessoa haverão de sentir a sua falta... Salve Aroeira - velho amigo da gente, referência respeitosa do lugar!

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

quem somos?!

me persegue a pergunta
tantas vezes respondida
sempre de forma incompleta
e ei-la aqui novamente
cheia de interrogações
mesmo depois desses anos
simulacros, desenganos
ainda não sei dizer
a resposta consentida
definitiva e perdida
no universo do meu ser
quem eu sou, afinal...
quem sou eu
quem somos nós
quem é você?!

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

fomes

o pão é a resposta da fome
mas depois de saciados
restam perguntas tantas
sobre a vida,
sobre a morte
e sobre o que nos consome
sou faminto nesse chão
sinto falta desse pão
pra matar a minha fome...

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

formigueiro

      Não é por falsa humildade que afirmo saber muito pouco entre todos os saberes, – é mera constatação. E mais, do pouco que sei, a maioria das coisas assustam ou esmagam por revelar o meu real tamanho diminuto. Formigo interiormente, formigam as minhas mãos, o sangue foge formigante nas veias. Me sinto uma formiga em lerdo movimento e vou arrastando um nada que pra mim é folha enorme tombando ora para lá ora para cá - refém do ondulante movimento ou sob o sopro de qualquer vento. Como ela, me lambuzo em doces e traço folhas verdes – mas também me diferencio pelo instinto carnívoro e soçobro à inclinação autodestrutiva me desmontando pensativo em muitas peças mentais que nem sempre se reencaixam. Isso, por vezes, faz de mim triste figura. Então suo, tremo e formigo. Mas, incansável igual a ela, vou insistindo quixotescamente e retomo a caminhada, vergado à folha da vez...

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

bom dia

      Quem me vê e enxerga uma imagem de pessoa equilibrada, não vê, contudo, o lastro da história que me trouxe até esse ponto da minha trajetória. Não, não estou pretendendo vitimizar-me - apenas tento utilizar um processo indutivo para chegar a uma generalidade: um retrato atual revela apenas a superfície de alguma situação ou pessoa, não é o ser de alguém que ali se encontra revelado. A busca do equilíbrio pressupõe superações, risos e lágrimas, altos e baixos. A dor eventual é um lastro a garantir um tal equilíbrio. Quem não sofreu ou não sofre alguma dor ocasional? Há quem sofra diturnamente e há até quem cultive um tanto a própria dor. Longe de mim tal escolha, o que eu procuro é o linimento apropriado para cada circunstância causadora de sofrimentos. Procuro eu mesmo ser bálsamo para as pessoas que me rodeiam. Nem sempre o consigo, é certo. Mas continuo insistindo nas tentativas. Também já não me mantenho refém da culpa pelos erros cometidos, como não sucumbo ao canto da sereia dos elogios aos eventuais acertos. Alguma sapiência adquirida com o passar do tempo me ensina que o melhor para se viver bem é viver bem um dia de cada vez. A bíblia - a melhor referência humanística que conheço - o ensina: a cada dia basta o seu cuidado. Me esforço, pois, para ter um bom dia de vida a cada vez! Que bom se o foco de ao menos um olhar iluminar-se com mais estas linhas ainda tecidas no escorregadio limiar da pieguice intimista.

Sábado, 26 de Abril de 2008

camadas de escamas

      Neste processo existencial que é longo e trabalhoso, quisera tirar ao menos umas tres novas camadas que me envolvem. Seria tão bom não precisar ensaios e papéis. Melhor seria andar nu e sem vergonhas - tudo bem que isso seja apenas utopia pelo andar da carruagem da humanidade que ainda segue entre sorrisos, acenos educados e assentimentos. Mas ao menos para mim, na ilha desabitada dos meus pensamentos, sei muito bem quem sou - e confesso que já gosto do que vejo no espelho, - não pela estética desgastada dos anos, mas pela redução daquelas camadas mais frívolas erodidas pelo tempo. A concretude do real confere maior densidade ao ser liberto do excesso de hipocrisia asmaticamente sufocante. Apesar de algum cansaço da estrada, um sopro leve de liberdade me permite uma respiração mais regular...

Terça-feira, 22 de Abril de 2008

depois da curva

depois da curva inclinada
que até pode ser a última
se não se conhece o caminho
ou talvez a retomada
no vôo de fazer ninhos
há que voltar pra casa
sempre ao fim dos dias
nenhum lugar é melhor
nenhuma cama tão boa
mergulhar sob as cobertas
nas noites frias de outono
onde os corpos trocam donos
e sonham somente sonham
sonhares alvissareiros...

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

tique-taques


      Alguma coisa no tempo me absorve em extenuante trabalho inútil da mente. O tempo passa. Na parede, quase desapercebido – meu relógio muito antigo marca sem saber essa passagem. É máquina, mas é personagem de uma história. Me lembro dos meus primeiros contatos com ele. Seus tique-taques monocórdios só pareciam interrompidos pelo badalar das horas cheias e de suas metades. Criança ingênua – a ingenuidade era minha companheira inseparável – eu via a alma do relógio e desde então eu já sabia que teríamos um caso de posse mútua. Tenho eu esse relógio ou será que ele me tem?! Não sei. Na verdade ele sempre marcou as minhas horas. Mesmo quando eu já não estava por perto e fui embora pra cidade. Primeiro a pequena e depois a grande. Meu relógio – que ainda não era – a esperar num compasso repetitivo e paciente. Tique-taque, tique-taque, tique-taque... Blemblom, blemblom, blemblom... Eram três horas da tarde. O sol a pino e um calor que Deus mandava. Os animais no pasto adivinhavam chuva relinchando, correndo, balindo, pastando. Eu chorava num canto sob o meu relógio... Imaginava febril as horas longínquas que nunca chegavam e que ainda não me deixavam partir. Parece que aquelas lágrimas tiveram o condão de acelerar o tempo que não passava e a partir de então, cada dia mais depressa ele foi passando e desgastando os infindáveis tique-taques do velho relógio pendurado. Anos depois, idas e vindas, depois de tantas mudanças o cansaço das viagens. Tanto quanto a mim ele me pareceu tão cansado da última vez que pude ouvi-lo noite adentro em seu balanço nostálgico e hipnótico... Se movia tão exausto e lento que ao clarear do dia seus ponteiros carcomidos amanheceram parados. Quando o moderno celular me despertou olhei-o lânguida e longamente, mirando as figuras gastas de seu vidro amarelado pelo tempo. Um tristonho desalento me envolveu e não tive coragem de girar sua anacrônica manivela que o obrigaria retomar seus movimentos a demarcar meu tempo. Quedei-me absorto e deixei que permanecessem imóveis seus ponteiros e badalo, e que se calassem os seus tique-taques...

Sábado, 12 de Abril de 2008

sorrisos

um sorriso não pensado
faz o peso aliviado
dá à vida mais praz