H@ vida depois dos 60

…com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas…

monólogo refletido

        E aí, tudo bem? Sério, tem horas que bate um tédio daqueles. Mas tudo certinho, fora alguns detalhes que não pesam e nem vale a pena reclamar. Uma pomadinha, um sorriso, um “me desculpe” e tudo bem. Mas a finitude da condição humana, certa compulsão consumista, as dúvidas metafísicas – tudo isso – fazem com que um cidadão se sinta as vezes engolido por um imenso ponto de interrogação. ¿O que será do amanhã? Do ontem não há muito o que falar porque já passou e do hoje é preciso esperar algumas horas para a gente se pronunciar que ninguém é de ferro pra responder algo assim de bate pronto. Por falar nisso, você percebeu como anda o tempo ultimamente? Instável feito bunda de neném. Mas isso é balela porque há uns quarenta anos eu já ouvia essa conversa. No fundo, no fundo, nada de muito importante muda na vida, exceto a fisionomia que, inclemente, o espelho esfrega na cara da gente…

pensado por Tarciso comente    

orvalho


fale por mim
furtivo orvalho
expresse meu silêncio
revele sob a florada
futura morada
sob as lápides
cobertas de pétalas…

pensado por Tarciso comente    

maturação

        Tenho alguma dificuldade com o foco. Atento para o conjunto e não vejo a parte, me fixo na parte e perco de vista o conjunto. Dou passos a esmo algumas vezes e quase sempre conto com o acaso para que as coisas se acertem. Geralmente se acertam. Um pouco porque sou sereno e paciente. Até a minha ansiedade que me devorava no passado perdeu muito de sua força e já me sinto capaz de esperar os acontecimentos se desenrolarem sem precipitá-los como dantes o faria. Não me sinto mais criança e também ainda não me sinto velho. Mas é conveniente me dar conta que os anos se passaram e às vezes parecem acelerar-se… O que é mais relevante é o fato de que me tornei mais tolerante, mais hábil no trato e mais capaz de dosar a vida com humor – é muito bom aprender a rir das próprias falhas e bobagens. Deve ser a maturidade rondando. Sempre achei, mas agora tenho convicção: quase sempre é possível administar a vida de forma a torná-la agradável e boa. Procurar viver bem não tem preço e pode me incluir nessa.

pensado por Tarciso comente    

fim de julho

        Olho sem pressa pela vidraça da janela e vejo a tarde dourada se espreguiçando. Árvores altas com folhas dançando à brisa desse árido inverno. Tudo é lento exceto meus pensamentos que me levam e trazem para múltiplos tempos e lugares já vividos. Tento imaginar algo que virá sem saber que espaço ocuparei dentro de cinco anos. Sobrevivendo até lá estarei então às vésperas dos sessenta, algo para mim difícil de imaginar. Ainda ontem eu era apenas um rapaz latino americano feito aquele imortalizado na voz de Belchior. Vindo do interior, sem dinheiro no bolso… Sereno, enfrento as melancolias sazonais inexplicadas. De vez em quando, nestes tempos, me engole uma compulsão consumista na vã tentativa de preencher certos vazios. Algumas vezes me ressinto de abraços ausentes conquanto tenha outros aconchegos no presente. A vida é boa, é mansa, é bela feito um lago rodeado de árvores centenárias. Tranqüilidade demais atrai o tédio e o meu remédio é pensar acelerado, sonhar acordado e nada mais… Tenho certeza que amanhã todas as cores recobram seu natural brilho.

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viagem

capta a mente
ilusões em lotes
flashes de antiquário
que arremetem dramas
contra as paredes
desacordo inteiro
e nego ao travesseiro
certos pesadelos
frutos do relógio
e do furor do espelho
à finitude incontida
é o tempo que passa
muito aquém do nada
espaço que resta
nos últimos quartos
na espiral da vida…

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lar

Sagrada liberdade
De fazer penar
Pois quisera tanto
Andar lado a lado
Mas por dom ou fado
A escolha é livre
Se pode querer
Também recusar
Ou quem sabe um dia
Reconsiderar…
E voltar pra casa
O melhor lugar!

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        bobagens sazonais

          Esse ano bissexto acrescenta e tira coisas da minha cabeça, especialmente cabelos que ganham brancura e perdem quantidade, mas as mudanças qualitativas são as únicas que contam. Nesses 366 dias em andamento, – dos que já transcorreram, – grande parte estiveram envoltos em tépida preguiça. Apesar disso meus pneus tem rodado mais que a média e os pedágios tem auferido lucro no meu prejuízo. Melhor nem reclamar porque as estradas andam boas… prefiro as tarifas das concessionárias de rodovias que o desgaste na máquina e os riscos de acidentes que se potencializam em estradas ruins. Alguém ao meu lado sorri dessas linhas percebendo claramente a enrolação. Explico. É que já fazem dez dias desde que estive por aqui rabiscando alguma bobagem e precisava registrar algo para que a posteridade não se ressinta. Certamente a audiência se esvai com esses vazios literários – oh pretensão!!! Uma coisa que tem me chamado a atenção e causado algum desconforto é a secura desses dias. Amanhã fazem 30 dias desde que São Paulo se molhou com parca chuva. Minha pele, meu nariz, meus olhos estão pra lá de ressequidos e uma tosse rouca expressa o ardor que se instala na garganta em dias assim. Julho se aproxima do final e logo logo se reiniciam as aulas do segundo semestre letivo. A faculdade esse ano esteve mais exigente que nos dois anos anteriores. Fico cansado com a rotina acadêmica… menos com os estudos e mais com os trajetos diários e a hora avançada que consigo ir pra cama – algo ruim para alguém bom bom de cama como eu… deito e durmo feito um anjo roncador. Bem, ninguém diga que eu não seja mais capaz de escrever alguma coisa no blog… claro que são besteiras, mas bobagens também se escreve. E tenho escrito!

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preguiça

A preguiça é pecado capital e eu juro que preciso me encontrar de novo em meu interior. E vou. A família pequena se multiplica nas festas de casamento. Primos, primas, tios, sobrinhos, afilhados, amigos… ah como é bom o clima do interior. Embora o provincianismo tenha seus defeitos e caprichos, não se pode negar a beleza natural, o encantamento das paisagens conhecidas desde sempre. Os tons dourados do sol generoso e do céu sem núvens. Noites frias e o quentão que nos aquece em noites julhinas. Porque tanto tempo sem postar?! Preguiça…

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Folha seca

           E a folha seca que o vento faz rodopiar… terá alguma serventia?! Ninguém se dá conta, ninguém dá valor até que os olhos façam contato com sua trajetória imprevisível e se encante com a evolução da sua dança inútil. Descontrole. Um descontrole, entretanto, sem estresse porque a folha seca nem se preocupa com seu destino… Talvez eu seja feito a folha seca vida afora em certos papéis que assumo ou que me assumem. Folha seca. Quem nunca se sentiu mera folha seca volátil arrastada pelo vento?! Quem disser não que guarde as suas pedras porque não pode existir nada mais inútil que a tentativa de apedrejar uma folha seca em seus volteios sem sentido…

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São João

          Fecho os olhos e mergulho nas memórias. Aromas, paladares, imagens e sons tomam conta de um momento chamado agora que busca um outro agora já vivido no passado. Não se trata de saudosismo – é só saudade. Saudade de amar daquele jeito juvenil capaz de entregas sem limites, de sonhar sobre brasas que aquecem sem queimar. Noites frias juninas do folclore, dos balões, noites frias de fogueiras, pinhões, batata doce e quentão. E o mais bonito de tudo, aquele sorriso brejeiro de indumentária caipira nas noites de São João…


(fonte: http://198.106.110.30/noticias/sao_joao_certo_maior1.jpg)

 Gilberto Gil – Viva São João

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