H@ vida depois dos 60

…com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas…

Até quem devia prender agora está roubando!!!

Eu não resisti a reproduzir o texto que encontrei no blog
Cerveja, Chapéu e Cuíca do Hugo Henrique.

“É ladrao que não acaba mais” ( Bezerra da Silva )

Quando Cabral aqui chegou
E semeou sua semente
Naturalmente começou
A lapidação do ambiente
Roubaram o ouro, roubaram o pau
Pra ficar legal, ainda tiraram o couro
Do povo dessa terra original
E só deixaram a má semente
Presente de Grego
Que logo se proliferou
E originou a nossa gente

É ladrão que não acaba mais
Tem ladrão que não acaba mais
Você vê ladrão quando olha pra frente
Você vê ladrão quando olha pra trás

E, a terra boa, mais o povo continua escravizado
Os direitos são os mesmos
Desde os séculos passados
O marajá, ele só anda engravatado
Não trabalha, não faz nada
Mas ta sempre endinheirado
Se entrar no supermercado…Você é roubado
E se andar despreocupado…Você é roubado
E se pegar no ponto errado…Você é roubado
E também se votar pra deputado…Você é roubado
Certo! Tem sempre 171 armando fria
Tem ladrão lá no congresso, na fila da padaria
Ladrão que rouba de noite, ladrão que rouba de dia
Dentro da delegacia, ninguém entendia a maior confusão
O doutor delegado grampeou todo mundo
Porque o ladrão roubou outro ladrão

É ladrão que não acaba mais
Tem ladrão que não acaba mais
Você vê ladrão quando olha pra frente
Você vê ladrão quando olha pra trás

pensado por Tarciso comente    

ilhado no tempo

Hoje é a minha ilha. A mesma ilha que, no entanto, se faz nova a cada dia. Único solo concreto entre o ontem e o amanhã. Podia ter feito melhor nesse dia, podia não ter errado tanto, podia tantas coisas… mas o dia ainda não terminou e alguma coisa boa ainda há por fazer antes que chegue ao fim. Se não fizer, – não posso me esquecer, – o amanhã vai virar hoje e daí terei todo um novo dia para fazer direito o que hoje não foi feito…

pensado por Tarciso comente    

espoletas

pariu-se o verso
à minha revelia
fruto da fantasia
sem dono
que não abdica ao trono
desta ironia
meu pecado é consentir
que o traço revele
o passo…
rumo ao cadafalso
ou a afronta gratuita
à alça de mira
duma arma inútil
tiro de espoleta
pirotecnia…

pensado por Tarciso comente    

levitação

Se eu tivesse asas hoje seria um daqueles dias feitos pra voar. Se eu fosse piloto, certamente haveria de justificar a profissão. Mesmo assim, não tendo asas e nem sendo piloto, meu corpo parece levitar e, de súbito, pareço transgredir a lei da gravidade… perguntada a razão, direi que uma especial não há… apenas o gosto bom de uma manhã dominical ensolarada e uma certeza tênue de estar no lugar certo, do jeito certo e no espaço adequado para ser quem sempre fui. Como aquele conhecido exemplo da água que toma a forma do jarro ou do jarro que molda o formato que a água nele adota… ambos se configurando mutuamente. Creio que estudar filosofia me tem feito bem e creio que estudar teologia me fará ainda um bem maior. Contudo, só o tempo para corroborar essa minha expectativa em grau otimista. Até lá, – ou ao menos por agora, – vou me permitir esse suave flutuar…

pensado por Tarciso comente    

brumas

quem sabe seja o arauto
de uma mensagem cifrada
enigma de vida
pois a morte é o norte
e o sul de cada dia
o sentimento é triste
vácuo frio em agonia
no piso úmido desta nave
só os tímidos rastros
de passos escondidos
portal que não se fecha
coração que não se abre
domesticado nesta jaula
procurando entre as grades
o brilho lunar da melancolia…

pensado por Tarciso comente    

pétalas caladas

Hoje não vou falar das flores que estão adormecidas. Não vou falar do clima frio e molhado. Não vou falar das babaquices da política tupiniquim. Nem vou falar de mim. Pensando bem, hoje simplesmente não vou falar… Quem dera, ao menos, que algum ouvido alucinado – tomado de uma sensibilidade súbita e aguçada – ouvisse as entrelinhas desse ensurdecedor silêncio!

pensado por Tarciso comente    

Aroeira

Ninguém sabia a razão do apelido, talvez só ele mesmo o soubesse. Aroeira. Um velho negro legítimo e forte que jamais se sentara numa daquelas carteiras escolares meticulosamente fabricadas por suas mãos calejadas. Nada era seu, a madeira, o serrote, o martelo, a grosa, pregos e parafusos, a bancada da marcenaria. Assim falando, entretanto, se poderia imaginar uma fábrica de móveis. Nada disso, era apenas um barracão abandonado e lá num canto cuidado – o único lugar efetivamente cuidado do barracão, aquelas tralhas bem antiquadas, embora os equipamentos de mão como serrote, martelo, arco de pua e outros estivessem sempre limpos e brilhantes que dava gosto ver. Juvêncio o dono de tudo, desde o barracão até as tachinhas de aço, – diversas vezes oferecera a velha marcenaria ao Aroeira. Mas que nada… ele dava um baita de um sorriso banguela e dizia que não precisava coisa alguma… só que o deixassem trabalhar na fabricação e no conserto das carteiras da escola onde seus netos estudavam. Na verdade ali estudaram seus nove filhos e até sua mulher – dona Chica – fizera Mobral e se alfabetizara depois de idosa. Aroeira pregava seus pregos, apertava seus parafusos, serrava suas peças de madeira, montava as carteiras e as entregava no grupo escolar. Dinheiro nunca quis, se contentava com o muito obrigado do diretor, o professor Vitalino Cabral. Bastava o salário mínimo da aposentadoria que o Mastroiani da farmácia havia conseguido para ele com seu amigo do escritório de advocacia – o único do vilarejo. O dr. Mendes não se fizera de rogado ao pedido do amigo farmacêutico, afinal suas tres meninas haviam feito intensivo uso das carteiras fabricadas pelo velho Aroeira. E olha que foram muitos anos somados de escola. Uma era arquiteta, outra professora e a terceira jornalista na capital. Bem, mas isso nem vem tanto ao caso. O foco aqui é o Aroeira. E para encurtar a história, motivo desses garranchos, a última carteira em fabricação não chegou a ser concluída. Aroeira ali rígido, sentado na carteira sem acabamento, parecia experimentá-la com aprovação. Jorge, seu neto de 8 anos ali ao seu lado chamava-o com insistência. Vovô! Vovô! Acorda vovô! Mas qual… Aroeira viajava a bordo de sua última carteira… Daqui um tempo os estudantes do grupo escolar Dr Barros Varella Pessoa haverão de sentir a sua falta… Salve Aroeira – velho amigo da gente, referência respeitosa do lugar!

pensado por Tarciso comente    

quem somos?!

me persegue a pergunta
tantas vezes respondida
sempre de forma incompleta
e ei-la aqui novamente
cheia de interrogações
mesmo depois desses anos
simulacros, desenganos
ainda não sei dizer
a resposta consentida
definitiva e perdida
no universo do meu ser
quem eu sou, afinal…
quem sou eu
quem somos nós
quem é você?!

pensado por Tarciso comente    

fomes

o pão é a resposta da fome
mas depois de saciados
restam perguntas tantas
sobre a vida,
sobre a morte
e sobre o que nos consome
sou faminto nesse chão
sinto falta desse pão
pra matar a minha fome…

pensado por Tarciso comente    

formigueiro

      Não é por falsa humildade que afirmo saber muito pouco entre todos os saberes, – é mera constatação. E mais, do pouco que sei, a maioria das coisas assustam ou esmagam por revelar o meu real tamanho diminuto. Formigo interiormente, formigam as minhas mãos, o sangue foge formigante nas veias. Me sinto uma formiga em lerdo movimento e vou arrastando um nada que pra mim é folha enorme tombando ora para lá ora para cá – refém do ondulante movimento ou sob o sopro de qualquer vento. Como ela, me lambuzo em doces e traço folhas verdes – mas também me diferencio pelo instinto carnívoro e soçobro à inclinação autodestrutiva me desmontando pensativo em muitas peças mentais que nem sempre se reencaixam. Isso, por vezes, faz de mim triste figura. Então suo, tremo e formigo. Mas, incansável igual a ela, vou insistindo quixotescamente e retomo a caminhada, vergado à folha da vez…

pensado por Tarciso comente