H@ vida depois dos 60

…com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas…

luz & sombras

.
Minha sombra me assombra
todo dia de noite.
Nunca enquanto ainda é dia
e a luz do sol alumia.
No pesadelo da escuridão da noite
sonho a alvorada despertando
ao ciclo de um novo dia…

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meu coração completa um mês de parceria

Hoje faz um mês que recebi o implante de um marcapasso cardíaco para corrigir um problema de bradicardia (batimentos lentos) causados pela doença de chagas que me acomete desde a infância. Até agora estou muito satisfeito com o resultado pois não sinto mais o desconforto das palpitações. A cicatriz do local do implante é mais discreta que eu imaginava que seria. Quando caminho em subidas ainda sinto uma sensação diferente no peito, como se estivesse sob o efeito de uma suave descarga elétrica, mas isso deve ser consequência da cicatrização interna e é um desconforto mínimo. Acho que já estou em condições de dirigir de novo. Agora tenho que resolver o problema do carro porque arriou a bateria depois de todo esse tempo sem uso…

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lapsos

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muitos pensares à minha volta
muitas voltas, muitos pesares
apesar de tudo voleio meu olhar
vejo o que não está no espelho
lábios vermelhos
a lágrima pingente
e um ponteio de viola
ouço a cor do teu silêncio
sinto muita falta
sinto muito
faltei mil pontos…

pensado por Tarciso comente    

pilhagem

.
das palavras cortantes
me esqueci – ou finjo…
só lembro o que perdi
pois feito ave de rapina
num súbito rasante pilhaste
algumas migalhas preservadas
naquele solo mais sagrado
pequenas centelhas de mim

(publicado originalmente em 18/02/2005)

pensado por Tarciso comente    

nexo desconexo

Temos direito a alguns rompantes na vida. Pretensioso, diraõ. Talvez. O meu pensamento é feito um parafuso que roda confuso e sem fuso. Anacrônico. Sincronizo teus passos e te persigo de perto. Por certo sempre soubeste que sou e ajo assim. Não valho grande coisa para você. Também não para mim. Minha autoestima é oscilante. Tenho dias de lixo e outros de diamante. Alguém deve me podar, me cerzir, me cozinhar no banho maria. Ainda assim eu quero o teu abraço aconchegante no qual prevalece o silêncio e o calor da tua pele…

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atualização sobre o marcapasso

No dia 28 de junho, uma quinta-feira, me submeti ao implante do marcapasso. O procedimento foi bem sucedido, graças a Deus e ao Dr Tavares. Pernoitei no hospital e no início da tarde de sexta-feira tive alta e pude ir embora para casa. Salvo dores incômodas mas suportáveis no braço direito, lado onde foi feito o implante, e alguma dificuldade de encontrar a posição mais confortável para dormir, tudo o mais foi se adequando perfeitamente. Depois de 15 dias desde o implante, hoje voltei ao médico para uma avaliação nos parâmetros da configuração do marcapasso. Na programação inicial não havia sido ativado o sensor para responder às exigências de aceleração do ritmo cardíaco em caso de esforço e isso, em duas ou três ocasiões, quando tive que subir a rua de casa para chegar até a avenida gerou algum desconforto e uma espécie de ardor no centro do peito. Hoje isso foi revisto e o sensor ativado para que, em circunstância de exigência maior, o ritmo acelere segundo a demanda. O dr. Tavares me informou que devo voltar para nova consulta de revisão do marcapasso dentro de 30 dias e que algumas coisas da rotina podem ser retomadas. Dirigir só depois de 40 dias da data do implante, esforços físicos intensos depois de 90 dias. Bem, deixo o registro de modo especial para que eu mesmo possa fazer memória desse momento existencial significativo em que tive a oportunidade de corrigir um problema de natureza elétrica que acometia a função dos meus batimentos cardíacos, lentificando-os cada vez mais. Com isso espero recuperar a qualidade de vida arranhada pelo desconforto das “palpitações” derivadas da bradiarritmia.
Bem, estas são as notícias principais de atualização do evento “implante de marcapasso”…

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Marcando passo (coisas do coração)

Meu coração precisa de ajuda. Calma, não há nada em especial que meus amigos possam fazer por mim. O que ele precisa é de de um dispositivo eletrônico – um avanço da medicina conhecido como marcapasso. A doença de Chagas, da qual sou portador desde a infância, acometeu a parte nervosa responsável pela condução elétrica do coração. Isso prejudica o trajeto dos impulsos desde o átrio até o ventrículo para provocarem as contrações regulares que bombeiam o sangue, irrigando o próprio coração e o organismo como um todo. Com isso, meus batimentos atualmente ficam na faixa de 40 a 50 por minuto, sendo que o normal seria de 60 a 100. A demora entre um batimento e outro geralmente provoca o aparecimento de extrassístoles ou batimentos ectópicos que são percebidos como “palpitações”. E são estes sintomas mais ou menos desagradáveis que acabam levando o paciente ao médico para tentar descobrir suas causas e o tratamento.
Do ponto de vista anatômico, estrutural e funcional, meu coração não tem qualquer outro comprometimento além dessa insuficiência de condução elétrica.
Assim, basta regularizar o ritmo cardíaco, algo agendado para uma data próxima do final de junho. Nessa ocasião vou me submeter ao implante de um marcapasso bicameral constituído de um gerador e dois cabos eletrodos que substituirão a “bateria” elétrica que está alimentando precariamente minha bomba cardíaca. Em princípio não é uma cirurgia complexa e 24 ou 48 horas após o implante já devo voltar para casa e convalescer durante uns 30 dias. Como em julho estarei de férias do Mestrado e da outra pós-graduação, em nível de especialização que estou cursando, quis usar essa janela de oportunidades para fazer o implante sem prejudicar minhas atividades acadêmicas.
Tenho confiança na proteção divina e também na incrível força da amizade. E aí sim, meus amigos também poderão ajudar. Os crentes, como eu, com suas orações, mas também os que não crêem, que com suas mentes amistosas podem emitir vibrações favoráveis.
Depois do procedimento, que espero me permita recuperar o ritmo certo, farei um novo post para informar como ocorreu a intervenção.
Conto com todas as torcidas!

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força vulnerável


o olhar dança e balança
fora e dentro de mim mesmo
a pele como intermédio
e o coração que pulsa
ora acelerado ora lento
enquanto a mente ora
e as mãos frias percorrem as contas
do rosário, do crediário
dos delírios matutinos
do martírio quotidiano
entre o sagrado e o profano
navego o dia
ancoro a noite
e deslizo pela vida
mais ou menos…
buscando sempre um motivo
pra sorrir e não chorar
tenho fome de entusiasmo
porque os medos espreitam
o eternamente vulnerável
que fui
que sou
que serei (?!)
até aonde não sei…

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polêmicas sacolinhas plásticas

Em tempo de patrulhas e obsessão pelo politicamente correto, estou deveras incomodado com essa lei que suprime as malfadadas sacolinhas plásticas gratuitas dos estabelecimentos comerciais. Só numa estória da carochinha o verdadeiro motivo é proteger a natureza da poluição causada por este material – a verdade do negócio é lucro mesmo e não essa hipocrisia idiota. Se houvesse toda essa preocupação ecológica certamente desapareceriam o isopor, as garrafas pets e todos os mais de 90% de embalagens não degradáveis no meio ambiente. Ah, os mercados agora tem embalagens biodegradáveis, mas vão faturar com isso e não bancar – como faziam até então – o custo das sacolinhas plásticas! Esse frankstein ideológico que é a união dos grandes supermercados e políticos nessa causa fraudulentamente ecológica só podia dar nisso. Todos sorridentes, exceto o povo que paga a conta!

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Natalício

Natalício era um rapaz de olhar distante e vazio, esguio para conversas, mas um leão no trabalho do dia a dia. Talvez por isso – sua discreção extremada – as pessoas não o notassem muito, exceto quando faltava ao serviço e suas tarefas precisavam ser executadas por dois de seus colegas de função porque um só nunca dava conta.

Diferentemente de todos os anos em que na segunda quinzena de dezembro férias coletivas interrompiam as atividades da empresa, neste ano, por conta de um aquecimento da economia e uma enxurrada de pedidos fora de época – as ditas férias foram postergadas para a primeira quinzena de janeiro. Então, já viu, nada de folga no período natalino e reveillon.

Ninguém da empresa, portanto, conhecia os estranhos hábitos de Natálicio em tempos de festividades natalinas. Dada a sua costumeira discreção, estranharam inicialmente quando já no dia 16 ele apareceu para trabalhar com a barba por fazer – algo absolutamente inédito em se tratando de Natalício Fontoura Ramos – o seu nome completo. No dia 17, já com a barba bem evidente, para espanto geral, apareceu vestido com uma calça e camisa vermelhas, luvas brancas, além de um cinturão e um par de botas pretas. Como sempre fazia, dirigiu-se ao seu armário, pendurou no cabide suas vestes extravagantes, vestiu seu uniforme de trabalho e executou com o mesmo esmero de sempre a sua tarefa cotidiana. O mesmo aconteceu nos dias 18, 19, 20, 21 e 22 – aparecendo sempre com esse traje que beirava o ridículo, além do crescimento cada vez mais acentuado de sua barba espessa. Folgou no dia 23 porque era domingo, mas no dia 24 todo mundo achou o cúmulo quando ele surgiu na empresa com o mesmo traje berrante, um gorro vermelho e branco na cabeça, um enchimento que deixava enorme a sua barriga e um saco de cetim vermelho às costas e, detalhe, cabelo e barba totalmente pintados de branco. Era o mais legítimo dos papais Noéis.

Sussurros pelos corredores, risadas discretas e escancaradas e um chamado urgente ao Natalício para comparecer ao departamento de pessoal. A direção da empresa barrou a sua entrada naquele dia e aplicou-lhe uma severa advertência e suspensão por um dia, além da ameça de demissão por justa causa em caso de reincidência. Mas ele, aparentemente resignado e até indiferente assinou as advertências e rumou de volta para casa, a pé, cantando Jingle Bells. Na semana depois do Natal não apareceu na empresa e nem deu satisfações. Mas no dia 30 de dezembro, sua mãe compareceu no departamento de pessoal com uma procuração do filho que a enviava com a tarefa de solicitar sua demissão. O presidente da empresa, informado e inconformado com a decisão daquele excelente empregado, pediu que enviassem à sua sala presidencial a mãe procuradora.

Educadamente desejou saber o motivo da atitude demissionária e dona Nadir explicou que o filho era muito tímido e também muito sensível, embora nunca tenha reclamado e não relutasse em cumprir anualmente a promessa que ela fizera quando do seu nascimento que só ocorrera por um milagre, em vista da gravidez ultra complicada e duas ameaças de aborto espontâneo. Ela passara acamada por quase três meses antes do parto, por estrita recomendação médica. O menino nasceu com saúde bastante debilitada, na primeira hora do dia 25 de dezembro e o pai resolvera batizá-lo com o nome de Messias – e só a muito custo foi convencido a concordar com o nome de Natalício, conforme os votos que a mãe fizera em angustioso silêncio momentos antes do parto. E ela também fizera esta promessa ao menino Jesus, se crescesse como ela ardentemente desejava, todo ano ele se vestiria de papai Noel às vésperas do Natal e sairia pelas vilas e casebres distribuindo alegria e presentes para algumas de suas crianças.

Mas ela não se queixava da indiferença das pessoas em relação ao seu filho e nem da reação punitiva da empresa, até havia estranhado que tivesse durado quase 6 anos o mesmo emprego porque nos empregos anteriores ele nem sequer pedira demissão pois sempre fora demitido às vésperas do Natal.

Uma coisa era certa, sentenciou dona Nadir ao presidente, as pessoas não costumam se esforçar para compreender o que lhes parece diferente e até mesmo estúpido, mas ela tinha convicção de que seu filho era um ser humano da melhor estirpe e apesar de saber que sua condição de mãe tornava sua opinião suspeita, ela não se importava e fazia questão de externar o seu grande orgulho pelo filho Natalício. O único senão do temperamento do filho era uma intolerância para com a ignorância e o desrespeito das pessoas quando o julgavam sem o devido conhecimento de suas causas – e nisso ele era irredutível.

Mas que o presidente não se preocupasse pois no próximo ano Natalício daria um jeito de encontrar um novo emprego e pelo menos até a metade de dezembro certamente conseguiria trabalhar em paz…

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