H@ vida depois dos 60

…com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas…

tsunamis

.
um olhar aos oceanos
se resume em muitas águas
o mesmo com a rotina
repetições e mais nada
até que cheguem mudanças
não mais marés, tsunamis
depois de sua passagem
só vai restar a paisagem
machucada, exaurida
e alguns poucos brotos verdes
únicos sinais de vida…

pensado por Tarciso (1) Comentário    

aposentadoria

.
bate o cartão pela manhã
é o mergulho inevitável na rotina
murmúrios, ordens, enfado
até que chegue enfim o meio dia

aromas, refeição, talheres
um pouco do bom da vida
e as sensações que seguem
torpor e a preguiça incontida

novo mergulho extenuante
retorna depois da alforria
suor nervoso e irritante
prazer só no fim do dia

depois do expediente e da jornada
com o trajeto de sempre repetido
afagos à chegada ao sweet home
lar e cumplicidade um bem da vida

quando acordou da sua letargia
e olhou com olhos de conquista
notou quarenta anos já passados
alienados do seu campo de vista

e agora jaz aposentado
ora no sofá ora na rede
segue mergulhado em orações
dobrado entre as quatro paredes…

pensado por Tarciso comente    

películas sociais

O genial normalmente está separado do ridículo apenas por uma tênue película que pode se romper, confundindo-os, até mesmo com algum suspiro mais prolongado.
As pessoas muito criativas não tem noção desse risco e em sua espontaneidade costumam cruzar estas fronteiras com certa graça e leveza. É isso que faz que aquilo que seria ridículo deixe de sê-lo nestas circunstâncias. Mas onde as pessoas vivem muito empertigadas no exercício de seus papéis sociais geralmente prevalece o ridículo onde supõem os bacanas haver criatividade.

Em sociedade também é comum assistir-se a jogadas arriscadas e beirando ao ridículo, em que um adversário aparentemente cordial conspira com a intenção de aplicar rasteiras naquele que considera seu oponente. Não raro cutuca o enxame para usufruir das ferroadas em carne alheia – o problema é que as abelhas não fazem a distinção e acabam ferroando mais a quem está mais perto – o conspirador, no caso.
Porque toda essa elucubração? Ah, são apenas algumas ideias inspiradas em fatos reais no entorno… vai dizer que nunca viu algo assim acontecer aí pertinho de você?!

pensado por Tarciso (2) Comentários    

do purgatório ao paraíso

                                          (e da imagem às palavras)

Embora haja uma infinidade de momentos muito iguais entre si, na verdade eles nunca se repetem. E algumas circunstâncias, então, são absolutamente atípicas em nossas experiências existenciais.
Já disse em post anterior que passei muito recentemente alguns dias em companhia do Wladi. O pretexto para tanto – na verdade, a necessidade – repito aqui, foi um problema na coluna cervical que já havia sido precedido por outro na lombar. A partir das descobertas que vamos paulatinamente fazendo a respeito dos predicados dos nossos contatos virtuais, constatei que o Wladi é um ser polivalente e entre suas aptidões regulares se encontram a massoterapia e quiropraxia. Meu problema parecia talhado para o seu solucionante trato terapêutico.

Havia a dificuldade com a distância – Porto Alegre não é exatamente uma cidade vizinha a São Paulo – entretando a aviação encurta as distâncias e as promoções comerciais das companhias aéreas nos possibilitam viagens venturosas. Benditas promoções! Encarei algumas, adquiri passagens e lustrei a cara de pau para avisar o Wladi que estava de malas prontas para a capital sul riograndense.

Chegando a Porto Alegre, encontro Wladi à minha espera e embarcados no santana fizemos rapidamente o percurso até seu apartamento.
Quanta saliva gastamos durante o primeiro dia é algo de difícil mensuração – mas acreditem – deve ter sido reaproveitada no mais novo e criativo projeto wladiano.
As horas se passavam e nada de tratamento colunar… quando a noite já ia avançando perguntei e então meu amigo notívago convidou-me ao trabalho. Entre temeroso e excitado pela novidade e perspectiva de encontrar conforto para a minha cervical já bem judiada pelas dores acumuladas, segui-o como um discípulo obediente nos movimentos de alongamento – ainda que as minhas juntas, articulações e músculos não cooperassem como eu desejaria. Após bastante alongado e aquecido o Wladi partiu para a massoterapia e a quiro, em seguida. Ao final da sessão me disse que, dependendo da minha reação muscular ao tratamento ele prosseguiria no dia seguinte com o mesmo tipo de massagem ou alternaria as sessões com massagens relaxantes.

Quando “subi”, ops, desci para o apartamento que me havia sido reservado – apesar de todo dolorido pelo trabalho muscular bastante intensivo para a minha sedentaridade confessa – praticamente caí desmaiado na cama tamanho era o meu sono. Massagem, definitivamente, me dá sono!

Dia seguinte acordei muito bem e disposto a enfrentar uma reedição do trabalho da véspera e assim foram nos dias sucessivos de minha permanência com o Wladi. Seriam 5 sessões, mas resolvi solicitar uma sexta para finalmente ter a experiência de uma massagem relaxante – caso contrário teria voltado sem a ter experimentado. As massagens terapêuticas são excelentes para ajudar na preparação para os ajustes da quiropraxia, mas a massagem relaxante é, sem dúvida, a que ajusta a percepção do corpo que o homo occidentalis vai perdendo na loucura de seu atribulado quotidiano. E não sou exceção.

Teria muitos detalhes mais a acrescentar mas o texto já está por demais dilatado. Só quero aduzir, ainda, que depois de todas as sessões eu finalmente consegui, de forma incipiente, é verdade – tocar com as mãos espalmadas o chão, mantendo as pernas esticadas, além de reproduzir, ainda que de forma um tanto torta e desequilibrada, a postura do “caipira”, algo que parecia muito remoto para as minhas possibilidades, à chegada.

Sou uma pessoa bastante religiosa e não tenho a menor dúvida que Deus faz milagres. Mas aprendi que também os ateus são capazes de realizar milagres – e o Wladi, por sinal um ateu professo com mais virtudes cristãs que muitos de nós – também realiza alguns verdadeiros milagres no dia a dia de seus pacientes. Hosanas, pois, ao Wladi nosso de cada sessão alongomassoquiroterapêutica…

Uma outra experiência que fiz questão de ousar, na ótima companhia do Wladi e Sara, foi a de degustar as refeições em bases vegetarianas de acordo com o costume de ambos. Me surpreendi com a facilidade com que me adaptei ao cardápio saboroso que é possível a partir da variedade de cereais, legumes, frutas e outros vegetais que a nossa pródiga natureza fornece. Estou bastante balançado a este propósito de uma vida vegetariana – mas não quero apenas mimetizar uma atitude bonita e razoável. Se vier a adotar a prática ela terá nascido da admiração inicial alimentada pela reflexão e autoconscientização. No momento estou pensando nos animais que, como diria São Francisco de Assis, também são nossos irmãos…

PS.: como transpiro música dos anos 60 por todos os poros afetivos, não resisti a imitar o Camafunga e colocar aí na coluna direita do blog algumas músicas prediletas, que tocam na minha Radio 40+.

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era uma vez uma amizade virtual

Na vida é assim, tudo se transforma. Para o mal ou para o bem, tudo se transforma.
No caso em questão, ainda bem, para o bem!
Meus problemas de coluna que nem são muito antigos, com algum desconforto na lombar e outro tanto mais recente na cervical, me fizeram dar tratos à bola para encontrar uma solução. Não sou de me conformar com situações desconfortáveis.
Pensei em procurar um ortopedista, e procurei. Depois de um raio xis e uma ressonância magnética, o diagnóstico quase zoológico: um bando de bicos de papagaios que, tecnicamente, tem o nome de osteofitos. Menos mal porque a primeira impressão do ortopedista era a de que se tratasse de uma hérnia de disco. A primeira recomendação foi o uso de um colar cervical e mais uma sessão de fisioterapias. Não me agradei nem da primeira nem da segunda sugestão e continuei a procurar alternativas. Depois de muito escarafunchar a mente me ocorreu o óbvio: o meu amigo Wladimir, que apesar de seus neurônios fritos, é um excelente massoterapeuta e quiropraxista. O único senão é que o cara mora em Porto Alegre pois se morasse em Sampa já o teria procurado desde os primeiros sintomas. Mas veio a calhar que tirei alguns dias de férias e misturei o prazer com a dor, fazendo um pequeno périplo até a capital sul riograndense onde, ontem à noite, padeci no paraíso por ocasião da primeira sessão de massoquiroterapia… Falei pro Wladi que ia contar pro mundo – pelo menos para esse meu pequeno mundo virtual – sobre alguns episódios dessa aventura que encetamos juntos.
Bem, para concluir esse capítulo, vou dizer que perdi um amigo virtual. Em compensação, alvíssaras, ganhei um verdadeiro amigo no mundo real…
E no meio dessa ventura toda, até pode ser que me encontre com outro amigo do mundo virtual, também aqui das plagas sul riograndenses, o Camafunga, o que seria o máximo em termos de amizade virtual se realizando numa mesma viagem.
E espero que não fique em uma visita só, mas que possamos escrever ainda novos episódios!!!
Ao Wladi, pois, um brinde de gratidão!

pensado por Tarciso (1) Comentário    

o que será que será

Tinha um monte de ideias guardadas a explanar, mas o calor exagerado me deixou inerte feito um lagarto preguiçoso na areia escaldante. Falar do tempo denota falta de assunto e a verdade é que o meu processo de decantação é bastante lento. Pacientemente lanço o meu anzol com iscas feitas de letras e sinais gráficos de pouco uso – o meu plano sempre foi o de pescar as melhores palavras e alinhá-las com cuidado na formação de frases que façam algum sentido. As palavras ainda não formadas convenientemente devolvo para o fundo do meu mar de ideias – dando-lhes mais tempo para maturarem. Matuto empertigado em busca de novas palavras, novas frases que sejam minimamente convincentes pois sei que os poucos leitores que se arriscam a estas plagas virtuais são bastante exigentes… Tenho o direito a um pouco de nonsense para apaziguar as inclemências da vida e estimular-me a vencer a preguiça. Sinto o meu olhar amolecido e vou me movendo em passos descuidados – sem direção, sem rumo, sem um destino definido. Sei o que não sou mas essa definição negativa ocuparia muito espaço escrito e, em compensação, estou longe de conseguir a definição fiel daquilo que sou. Penso, existo – mas ainda assim duvido sistematicamente de grande parte das verdades que preciso afirmar, afinal, quem sou? De onde vim? Para onde vou?
Por enquanto me alimento das perguntas com o propósito de em algum momento regurgitar pelo menos algumas das respostas que satisfaçam meu desejo de saber o que será de mim…

pensado por Tarciso comente    

solidão de fé

O ser humano nasce só e vive na ilusão de muitas companhias, mas no seu inescapável final, vai morrer solitário mesmo se houverem muitas pessoas queridas ao redor. Não se compartilha o ato de morrer. A morte é, ainda mais que o nascimento, um ato tremendamente solitário. Há um que morre e os outros podem apenas assistir – nada mais que isto.
O que é morrer, afinal? Todos os que morreram não podem compartilhar de sua experiência e então resta apenas a fé para os que a têm e o ceticismo aos demais. A fé há de ser minha companhia até o momento derradeiro nesta instância de vida porque depois ela terá que desaparecer. Restará apenas o amor – o vivido antes e o infinito que se espera para depois.
Eu creio e isso é o único alívio que possuo diante das angústias da experiência de existir…
Mas essa pequena chama que fumega em minha alma é toda a diferença entre o cético sofredor que já fui um dia – e o crente expectante, apesar das tantas dúvidas – que a partir de um certo dia, eu mesmo passei a ser.

pensado por Tarciso (3) Comentários    

fenda e parafuso

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o parafuso entontece
confuso em volta de si mesmo
se aprofunda e morre extenuado
jaz agarrado à cova que cavara
e agora nele se penduram chapéus
folhinhas de paisagens e mulheres nuas
segura ainda um vaso de xaxim e sua rosa
calo o non sense
pois ando muito prosa
e já pressinto o breque
de um pensamento brusco
(¿Por qué no te callas?)

PS.: sessão antiquário, com suaves adaptações (08/jan/2003)

pensado por Tarciso (1) Comentário    

vida de cachorro

Olhei ao meu redor abanando o rabo mas logo percebi que minha dona estava com cara de poucos amigos. À minha aproximação amistosa enxotou-me com uma toalha molhada. Não sei o que mais me doeu, se as pancadas ou o olhar de desprezo estampado em sua face crispada. Fugi para o fundo do quintal enquanto ela desfiava uma série de impropérios, típicos daqueles momentos de fúria da espécie humana. Mas ela não era assim, – ao contrário, – habitualmente era meiga e carinhosa, banhava e me alimentava com um olhar terno e maternal. A vida de cachorro não me era de todo ruim – particularmente desde aquele fatídico dia em que fui atropelado – e ela, num gesto de remorso, levou-me ferido para a sua casa. Confesso que estava em condições pestilentas e nem sei como ela conseguiu vencer a repulsa inicial para em seguida me agasalhar em seu carro e me levar consigo. Seu marido estava gravemente enfermo, era portador de um cancer de colon com metástases generalizados e já em fase terminal. Faleceu dias depois e por alguns meses ela se tornou uma espécie de autômato distante. Depois passou a receber aqueles homens asquerosos – ao menos para a minha sensibilidade canina – mas eram amigos seus que vinham ao fim do dia e pernoitavam com ela. Ela jamais permitiu que se aproximassem de mim porque eu me sentia incomodado e agressivo na presença daqueles seus interesseiros convivas que, invariavelmente, se esgueiravam sorrateiros em direção à rua em cada manhã. Apesar disso não me deixou sem os cuidados básicos, dispensando-me vacinação, banhos, tosa e alimentação quotidiana e, por alguns dias até me albergou em um canil para viajar com um daqueles seus amigos que passou a venerar com grande dedicação, fazendo aumentar potencialmente a minha raiva e frustração. Ao voltar ela pareceu bastante animada, até alugou um trailler confortável que atrelou em uma caminhonete e por alguns dias eu, ela e seu amigo a quem aprendi tolerar para não aborrecê-la, estivemos viajando para diversos lugares aprazíveis. Apesar da minha resistência a seu amigo que, diga-se, sempre tratou-me com decência, aqueles dias foram os mais felizes da nossa convivência… Então não compreendo o que ocorre nesta manhã que a parece perturbar tanto e, espere… lá vem ela apressada em minha direção. Empunha um objeto prateado e reluzente. Parece mais calma. Senta-se ao meu lado e me alisa o dorso com suas mãos quentes e aconchegantes. Fica assim por um longo tempo até que adormeço. De repente um estampido me desperta assustado e em seguida a sinto debruçada sobre mim. Nada se ouve além dos meus ganidos.
Com minha experiência de cachorro, pensei que a conhecesse – mas vejo não passo mesmo de um viralatas perdido com a inevitável sina de viver sem dono.

pensado por Tarciso comente    

bendito fruto

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a semente gera o fruto
eu sou o fruto e a semente
e é melhor não me iludir
que antes e depois de mim
a multidão inclemente…

pensado por Tarciso comente