{"id":292,"date":"2008-05-28T17:37:00","date_gmt":"2008-05-28T17:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/luiztarciso.net\/?p=292"},"modified":"2011-01-10T15:46:48","modified_gmt":"2011-01-10T18:46:48","slug":"aroeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luiztarciso.net\/?p=292","title":{"rendered":"Aroeira"},"content":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m sabia a raz\u00e3o do apelido, talvez s\u00f3 ele mesmo o soubesse. Aroeira. Um velho negro leg\u00edtimo e forte que jamais se sentara numa daquelas carteiras escolares meticulosamente fabricadas por suas m\u00e3os calejadas. Nada era seu, a madeira, o serrote, o martelo, a grosa, pregos e parafusos, a bancada da marcenaria. Assim falando, entretanto, se poderia imaginar uma f\u00e1brica de m\u00f3veis. Nada disso, era apenas um barrac\u00e3o abandonado e l\u00e1 num canto cuidado &#8211; o \u00fanico lugar efetivamente cuidado do barrac\u00e3o, aquelas tralhas bem antiquadas, embora os equipamentos de m\u00e3o como serrote, martelo, arco de pua e outros estivessem sempre limpos e brilhantes que dava gosto ver. Juv\u00eancio o dono de tudo, desde o barrac\u00e3o at\u00e9 as tachinhas de a\u00e7o, &#8211; diversas vezes oferecera a velha marcenaria ao Aroeira. Mas que nada&#8230; ele dava um baita de um sorriso banguela e dizia que n\u00e3o precisava coisa alguma&#8230; s\u00f3 que o deixassem trabalhar na fabrica\u00e7\u00e3o e no conserto das carteiras da escola onde seus netos estudavam. Na verdade ali estudaram seus nove filhos e at\u00e9 sua mulher &#8211; dona Chica &#8211; fizera Mobral e se alfabetizara depois de idosa. Aroeira pregava seus pregos, apertava seus parafusos, serrava suas pe\u00e7as de madeira, montava as carteiras e as entregava no grupo escolar. Dinheiro nunca quis, se contentava com o muito obrigado do diretor, o professor Vitalino Cabral. Bastava o sal\u00e1rio m\u00ednimo da aposentadoria que o Mastroiani da farm\u00e1cia havia conseguido para ele com seu amigo do escrit\u00f3rio de advocacia &#8211; o \u00fanico do vilarejo. O dr. Mendes n\u00e3o se fizera de rogado ao pedido do amigo farmac\u00eautico, afinal suas tres meninas haviam feito intensivo uso das carteiras fabricadas pelo velho Aroeira. E olha que foram muitos anos somados de escola. Uma era arquiteta, outra professora e a terceira jornalista na capital. Bem, mas isso nem vem tanto ao caso. O foco aqui \u00e9 o Aroeira. E para encurtar a hist\u00f3ria, motivo desses garranchos, a \u00faltima carteira em fabrica\u00e7\u00e3o n\u00e3o chegou a ser conclu\u00edda. Aroeira ali r\u00edgido, sentado na carteira sem acabamento, parecia experiment\u00e1-la com aprova\u00e7\u00e3o. Jorge, seu neto de 8 anos ali ao seu lado chamava-o com insist\u00eancia. Vov\u00f4! Vov\u00f4! Acorda vov\u00f4! Mas qual&#8230; Aroeira viajava a bordo de sua \u00faltima carteira&#8230; Daqui um tempo os estudantes do grupo escolar Dr Barros Varella Pessoa haver\u00e3o de sentir a sua falta&#8230; Salve Aroeira &#8211; velho amigo da gente, refer\u00eancia respeitosa do lugar!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m sabia a raz\u00e3o do apelido, talvez s\u00f3 ele mesmo o soubesse. Aroeira. Um velho negro leg\u00edtimo e forte que jamais se sentara numa daquelas carteiras escolares meticulosamente fabricadas por suas m\u00e3os calejadas. Nada era seu, a madeira, o serrote, o martelo, a grosa, pregos e parafusos, a bancada da marcenaria. Assim falando, entretanto, se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/292"}],"collection":[{"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=292"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/292\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":760,"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/292\/revisions\/760"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/luiztarciso.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}