{"id":745,"date":"2011-01-10T07:52:48","date_gmt":"2011-01-10T10:52:48","guid":{"rendered":"http:\/\/luiztarciso.net\/?p=745"},"modified":"2011-01-10T15:41:52","modified_gmt":"2011-01-10T18:41:52","slug":"vida-de-cachorro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luiztarciso.net\/?p=745","title":{"rendered":"vida de cachorro"},"content":{"rendered":"<p>Olhei ao meu redor abanando o rabo mas logo percebi que minha dona estava com cara de poucos amigos. \u00c0 minha aproxima\u00e7\u00e3o amistosa enxotou-me com uma toalha molhada. N\u00e3o sei o que mais me doeu, se as pancadas ou o olhar de desprezo estampado em sua face crispada. Fugi para o fundo do quintal enquanto ela desfiava uma s\u00e9rie de improp\u00e9rios, t\u00edpicos daqueles momentos de f\u00faria da esp\u00e9cie humana. Mas ela n\u00e3o era assim, &#8211; ao contr\u00e1rio, &#8211; habitualmente era meiga e carinhosa, banhava e me alimentava com um olhar terno e maternal. A vida de cachorro n\u00e3o me era de todo ruim &#8211; particularmente desde aquele fat\u00eddico dia em que fui atropelado &#8211; e ela, num gesto de remorso, levou-me ferido para a sua casa. Confesso que estava em condi\u00e7\u00f5es pestilentas e nem sei como ela conseguiu vencer a repulsa inicial para em seguida me agasalhar em seu carro e me levar consigo. Seu marido estava gravemente enfermo, era portador de um cancer de colon com met\u00e1stases generalizados e j\u00e1 em fase terminal. Faleceu dias depois e por alguns meses ela se tornou uma esp\u00e9cie de aut\u00f4mato distante. Depois passou a receber aqueles homens asquerosos &#8211; ao menos para a minha sensibilidade canina &#8211; mas eram amigos seus que vinham ao fim do dia e pernoitavam com ela. Ela jamais permitiu que se aproximassem de mim porque eu me sentia incomodado e agressivo na presen\u00e7a daqueles seus interesseiros convivas que, invariavelmente, se esgueiravam sorrateiros em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 rua em cada manh\u00e3. Apesar disso n\u00e3o me deixou sem os cuidados b\u00e1sicos, dispensando-me vacina\u00e7\u00e3o, banhos, tosa e alimenta\u00e7\u00e3o quotidiana e, por alguns dias at\u00e9 me albergou em um canil para viajar com um daqueles seus amigos que passou a venerar com grande dedica\u00e7\u00e3o, fazendo aumentar potencialmente a minha raiva e frustra\u00e7\u00e3o. Ao voltar ela pareceu bastante animada, at\u00e9 alugou um trailler confort\u00e1vel que atrelou em uma caminhonete e por alguns dias eu, ela e seu amigo a quem aprendi tolerar para n\u00e3o aborrec\u00ea-la, estivemos viajando para diversos lugares apraz\u00edveis. Apesar da minha resist\u00eancia a seu amigo que, diga-se, sempre tratou-me com dec\u00eancia, aqueles dias foram os mais felizes da nossa conviv\u00eancia&#8230; Ent\u00e3o n\u00e3o compreendo o que ocorre nesta manh\u00e3 que a parece perturbar tanto e, espere&#8230; l\u00e1 vem ela apressada em minha dire\u00e7\u00e3o. Empunha um objeto prateado e reluzente. Parece mais calma. Senta-se ao meu lado e me alisa o dorso com suas m\u00e3os quentes e aconchegantes. Fica assim por um longo tempo at\u00e9 que adorme\u00e7o. De repente um estampido me desperta assustado e em seguida a sinto debru\u00e7ada sobre mim. Nada se ouve al\u00e9m dos meus ganidos.<br \/>\nCom minha experi\u00eancia de cachorro, pensei que a conhecesse &#8211; mas vejo n\u00e3o passo mesmo de um viralatas perdido com a inevit\u00e1vel sina de viver sem dono.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olhei ao meu redor abanando o rabo mas logo percebi que minha dona estava com cara de poucos amigos. \u00c0 minha aproxima\u00e7\u00e3o amistosa enxotou-me com uma toalha molhada. N\u00e3o sei o que mais me doeu, se as pancadas ou o olhar de desprezo estampado em sua face crispada. 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