Também hoje quero divagar, pois que divago todo dia. A cordinha do pensamento se rompeu e aonde vou parar nem sei. Eu penso no turbilhão dos séculos e das galáxias enquanto miro pequenas formigas passeando sobre o vidro translúcido da minha janela ornada exteriormente por pequenas gotas brilhantes e orvalhadas. Cada formiga é um universo inteiro, nem que seja um universo de formiga. Estranho como elas tem tantas patas e como não se consegue definir sua fisionomia para uma identificação individual. Como é seu nome dona formiguinha?!. O universo me parece tão grande que tende ao absurdo. E eu, e quanto a mim?! Quem sou; de onde vim; pra onde vou?! Será que tudo se transformará numa grande nebulosa?! Há pequenos prazeres, pequenas dores. Há grandes prazeres e grandes dores. Há deleites extremos e tragédias. Aviões também caem e matam gente. Raramente – mas caem! Então uma dor repentina choca uma nação. Notícias, manchetes, teorias e explicações em tantas páginas de jornal. Enquanto isso se sucedem mortes no varejo dos motoqueiros nas ruas das metrópoles, dos motoristas e passageiros nas rodovias descuidadas, dos trabalhadores ribeirinhos em barcaças naufragadas, das vítimas das balas perdidas nas vielas, dos pacientes nos corredores dos grandes hospitais abandonados – mortes que povoam as estatísticas sem causar essa comoção generalizada…. Já quanto aos trágicos eventos aéreos, todos – invariavelmente, desde o presidente ao grande latifundiário, do miserável ao grande otário, o vereador, o senador e o deputado e até mesmo o seu vigário e o alcaide encabulado expressam com frases calculadas sua mesmice ou seu pesar. Só as formigas não parecem se preocupar e passeiam nas fuselagens acidentadas como se fossem suas casas, como se fossem sua pátria, como se nada tivesse acontecido… Acabei de comer um pudim cremoso e ainda trago seu sabor em minha mente, e na embalagem lambuzada que o continha eu vislumbro – pasmem – formigas da fuselagem carbonizada… Essa visão turva até me faz parecer que tudo não passa de formigueiros e formigas!
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