em tempos arredios
até o meu silêncio é mudo
não confio na eloquência
ou na candura de um sorriso
e a cada palavra ouvida
a minha reticência por resposta
mas sou um arredio sazonal
é quando o alvoroço toma conta
ao som de tilintares e risadas
ferindo todo laço ou compromisso
à força de ironias desregradas
ali já não existe a companhia
e o afeto mútuo é desigual
suporto aquilo um momento
depois me afasto e emudeço
e espero o retorno ao natural
se sinto que é inverno adormeço
interno em meu refúgio habitual
formastes-me iglu – pois o derretas
seduza-me em teu hálito candente
calando este silêncio matinal
tempos arredios
já
as imagens impactam
película sensível
arrastam-se após o fim
créditos e a trilha em gradientes
mergulho em reminiscências
e adentro um silêncio branco
que me remete a velhas imagens
já não na tela à frente
de olhos fechados posso vê-las
as imagens se borram na tv
lágrimas distorcem a visão
nítidas as cenas interiores
perscruto o interior do coração
não ligo parecer piegas
não me desfaço das lágrimas
há um que de juvenil
nessa saudade
desejo de solidão
aprofundo o meu silêncio
já não sou mais criança
já não sou mais
já não sou
já não
já
…
problemas nos comentários do blog
Tive um problema com os posts do mes de janeiro e acabei perdendo todos os comentários. Mais tarde vou tentar recuperá-los e transcrever nos respectivos posts. Fiquei chateado com isso, mas são coisas que acontecem quando a gente fica fuçando muito no blog como andei fazendo estes dias. Lamento e peço desculpas aos leitores que tiveram seus comentários perdidos…
questão de números
a vida não se resume em números
apesar de inúmeras teorias contrárias
do que adiantam os milhões no banco
ao correntista morto?!
ele mal é enterrado
os órfãos desconfiados
já repartem os despojos
isso é meu
não, não, é meu
o que isso, claro que é meu
cada um defende o seu
o dinheiro que era um
agora tem muitos donos
e aquela fraternidade?!
a petulância de uns
a arrogância de outros
sempre geram divisões
onde imperam ambições
jamais a paz vai reinar
não sei quantas vezes
nisso ainda vou pensar
melhor eu deixar pra lá…
é só mais uma questão de números
hibernância
ao pensamento alado
o corpo acorrentado
não pode acompanhar
aonde agora andará?…
tento vencer a letargia
e descobrir que novidades
depois de um tempo me trará
meu ideal agora é hibernar
ao menos por algumas estações
já nem me importarei
seja verão ou primavera
seja inverno ou meu outono
morro letárgico de sono
sonhando um novo dia que virá…
força estranha
despido em aconchego
assim me rondo e reconheço
sem os desmandos da hipocrisia
em suas demandas desregradas
frustro a estética da mídia
aonde o belo é feio
e um feio de feiúra escancarada
percebo oposta a realidade
ainda que a idade nos traga seus temores
mas traz também alguns sabores
a carne pode estar trêmula e cansada
mas ainda é viva e a tez suave
carrego ao peito alma febril enluarada
e o viço dos olhos é mantido
a tensa caldeira das entranhas
expele calor sutil e inexplicável
feito vulcão extinto e apagado
donde transborda um vinho inebriante
caudal de ternuras sufocadas
agridoce embriagando vidas
entorpecido ao vazio sublimado
namoro a estrela, beijo a lua
a emitir grunhidos solitários
colibri
na fuga
um travo de fel
na busca
um favo de mel
mas nenhum naco recebi
lépida partiste
e no silêncio morto
me envolvi
voaste em solo
deixando-me sozinho
a trinar desafinado
desarvorado colibri
sublimações
Nem só de poesia o viver. Às vezes tenho gana de render-me ao sorvedouro das mudanças. Encetar uma viagem bandida sem portos delineados. Romper todas as instâncias dos consensos, da decência, das censuras. Mas o passo não é alçado e a saliva é engolida sem o naco desejado. Sublimo. Reprimo. Choro de saudades de algo que não foi vivido e nem completamente sonhado. As culpas sobrevêm. Me abastei de bem-estar. Sinto-me envolvido em atmosfera serena. Ausente apenas o fator surpresa. As mais intensas interjeições exclamativas não pertencem ao meu universo. Meu mover é metódico, milimétrico, completamente previsível… Quando tudo está bem, tudo está bem. Quando algo não vai bem, nada vai bem… Desabafo. Desafogo. Me volto ao meridiano propenso a fugir das sombras… Agradecido constato o óbvio nem sempre ostensivo ou encantador: estou bem vivo e vivo bem. Isso devia bastar e me fazer transbordar gratidão. Mas não… E vem o arrependimento por me render aos lamentos sem ter o que lamentar…
sobrevôos
sou perfeita imperfeição
quando me vejo no chão
tenho asas pra cuidar
e quando plano liberto
vejo a terra a descoberto
onde tenho que pousar
transmuto meus elementos
água fogo terra e ar
queimo as dores
bebo as flores
do meu aterro um hangar
nele habito e descortino
um infinito voar
desejos
desejos plenos
planos em ciclos
que rodopiam
volvendo ao mesmo lugar
há que recomeçar
nesta lágrima pingente
rolando a face enxuta
febril cansaço das lutas
e as letras despejadas
carregadas de non-sense
dimensões quase minúsculas
já fulgura alaranjado
meu crepúsculo solar
adentro às quatro luas
de alma nua
querendo calar
no embriagante silêncio
a ruminar os desejos
sublimados ternamente
nos porões da minha mente
e em seus desvãos inocentes
onde podem sem censura
em clausura se abrigar
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