H@ vida depois dos 60

…com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas…

tempos arredios

em tempos arredios
até o meu silêncio é mudo
não confio na eloquência
ou na candura de um sorriso
e a cada palavra ouvida
a minha reticência por resposta
mas sou um arredio sazonal
é quando o alvoroço toma conta
ao som de tilintares e risadas
ferindo todo laço ou compromisso
à força de ironias desregradas
ali já não existe a companhia
e o afeto mútuo é desigual
suporto aquilo um momento
depois me afasto e emudeço
e espero o retorno ao natural
se sinto que é inverno adormeço
interno em meu refúgio habitual
formastes-me iglu – pois o derretas
seduza-me em teu hálito candente
calando este silêncio matinal

pensado por Tarciso comente    

as imagens impactam
película sensível
arrastam-se após o fim
créditos e a trilha em gradientes
mergulho em reminiscências
e adentro um silêncio branco
que me remete a velhas imagens
já não na tela à frente
de olhos fechados posso vê-las
as imagens se borram na tv
lágrimas distorcem a visão
nítidas as cenas interiores
perscruto o interior do coração
não ligo parecer piegas
não me desfaço das lágrimas
há um que de juvenil
nessa saudade
desejo de solidão
aprofundo o meu silêncio
já não sou mais criança
já não sou mais
já não sou
já não

pensado por Tarciso comente    

problemas nos comentários do blog

Tive um problema com os posts do mes de janeiro e acabei perdendo todos os comentários. Mais tarde vou tentar recuperá-los e transcrever nos respectivos posts. Fiquei chateado com isso, mas são coisas que acontecem quando a gente fica fuçando muito no blog como andei fazendo estes dias. Lamento e peço desculpas aos leitores que tiveram seus comentários perdidos…

pensado por Tarciso comente    

questão de números

a vida não se resume em números
apesar de inúmeras teorias contrárias
do que adiantam os milhões no banco
ao correntista morto?!
ele mal é enterrado
os órfãos desconfiados
já repartem os despojos
isso é meu
não, não, é meu
o que isso, claro que é meu
cada um defende o seu
o dinheiro que era um
agora tem muitos donos
e aquela fraternidade?!
a petulância de uns
a arrogância de outros
sempre geram divisões
onde imperam ambições
jamais a paz vai reinar
não sei quantas vezes
nisso ainda vou pensar
melhor eu deixar pra lá…
é só mais uma questão de números

pensado por Tarciso comente    

hibernância

ao pensamento alado

o corpo acorrentado

não pode acompanhar

aonde agora andará?…

tento vencer a letargia

e descobrir que novidades

depois de um tempo me trará

meu ideal agora é hibernar

ao menos por algumas estações

já nem me importarei

seja verão ou primavera

seja inverno ou meu outono

morro letárgico de sono

sonhando um novo dia que virá…

pensado por Tarciso comente    

força estranha

despido em aconchego

assim me rondo e reconheço

sem os desmandos da hipocrisia

em suas demandas desregradas

frustro a estética da mídia

aonde o belo é feio

e um feio de feiúra escancarada

percebo oposta a realidade

ainda que a idade nos traga seus temores

mas traz também alguns sabores

a carne pode estar trêmula e cansada

mas ainda é viva e a tez suave

carrego ao peito alma febril enluarada

e o viço dos olhos é mantido

a tensa caldeira das entranhas

expele calor sutil e inexplicável

feito vulcão extinto e apagado

donde transborda um vinho inebriante

caudal de ternuras sufocadas

agridoce embriagando vidas

entorpecido ao vazio sublimado

namoro a estrela, beijo a lua

a emitir grunhidos solitários

pensado por Tarciso comente    

colibri

na fuga

um travo de fel

na busca

um favo de mel

mas nenhum naco recebi

lépida partiste

e no silêncio morto

me envolvi

voaste em solo

deixando-me sozinho

a trinar desafinado

desarvorado colibri

pensado por Tarciso comente    

sublimações

Nem só de poesia o viver. Às vezes tenho gana de render-me ao sorvedouro das mudanças. Encetar uma viagem bandida sem portos delineados. Romper todas as instâncias dos consensos, da decência, das censuras. Mas o passo não é alçado e a saliva é engolida sem o naco desejado. Sublimo. Reprimo. Choro de saudades de algo que não foi vivido e nem completamente sonhado. As culpas sobrevêm. Me abastei de bem-estar. Sinto-me envolvido em atmosfera serena. Ausente apenas o fator surpresa. As mais intensas interjeições exclamativas não pertencem ao meu universo. Meu mover é metódico, milimétrico, completamente previsível… Quando tudo está bem, tudo está bem. Quando algo não vai bem, nada vai bem… Desabafo. Desafogo. Me volto ao meridiano propenso a fugir das sombras… Agradecido constato o óbvio nem sempre ostensivo ou encantador: estou bem vivo e vivo bem. Isso devia bastar e me fazer transbordar gratidão. Mas não… E vem o arrependimento por me render aos lamentos sem ter o que lamentar…

pensado por Tarciso comente    

sobrevôos

sou perfeita imperfeição

quando me vejo no chão

tenho asas pra cuidar

e quando plano liberto

vejo a terra a descoberto

onde tenho que pousar

transmuto meus elementos

água fogo terra e ar

queimo as dores

bebo as flores

do meu aterro um hangar

nele habito e descortino

um infinito voar

pensado por Tarciso comente    

desejos

desejos plenos

planos em ciclos

que rodopiam

volvendo ao mesmo lugar

há que recomeçar

nesta lágrima pingente

rolando a face enxuta

febril cansaço das lutas

e as letras despejadas

carregadas de non-sense

dimensões quase minúsculas

já fulgura alaranjado

meu crepúsculo solar

adentro às quatro luas

de alma nua

querendo calar

no embriagante silêncio

a ruminar os desejos

sublimados ternamente

nos porões da minha mente

e em seus desvãos inocentes

onde podem sem censura

em clausura se abrigar

pensado por Tarciso comente