das palavras cortantes
me esqueci – ou finjo…
só lembro o que perdi
pois feito ave de rapina
num súbito rasante pilhaste
algumas migalhas preservadas
naquele solo mais sagrado
pequenas centelhas de mim
pilhagem
salvado das traças(12/09/1986)
Dar vazão às sensações contidas
trazer à tona difusas dores desconhecidas
procurar-se imerso o caudal de aguerridas iras
socar o vazio gritando contra e repelindo o tédio
amealhar remédio interrompendo a queda livre
Onde andarão alquelas alegrias sem compromisso;
e a certeza do tudo bem, a segurança de ter a vida algum sentido?
por que pisando o chão sinto-o escorregadio;
onde depositar e colher algum amor do qual estou faminto?
E meus unguentos
e os quebrantos
e os silêncios
e os acalantos?!
Tudo acabaria bem num quente abraço…
seria tão melhor num regaço estar contido
deleitar-me e dormir ouvindo tuas cantigas de ninar
quedar-me num torpor e dormitar de amor…
saudades
estrelas sempre brilham
é da sua natureza
refulgem enquanto existem
e mesmo partindo
deixam o reflexo do seu brilho
impressos na memória
nesse imenso pontilhado de luzes
inscrustrados em nossa história

Benedito Machado de Lima
ou simplesmente o Tio Dito
é mais uma destas estrelas
que luzem nas lembranças
depois de cruzarem
o limiar desta vida
ingressando no eterno
que sem muita pressa
a todos nos aguarda
lados alados
bem ali lado de lá
pertinho como jamais
alheio ao lado de cá
vou preencher minhas lentes
com visões bruxuleantes
sem te poder enxergar
sinto apenas teu perfume
percebo o teu calor
intuo que me devoras
com ânsias no teu olhar
pudera desintegrarmos
e então unificarmos
novo ser noutro lugar
decifração
hoje sou anverso
sem querer o avesso
ou agir travesso
meio ao carnaval
não carnavalizo
só ouço rumores
rufar dos tambores
ao longe de mim
aproveito as horas
em dolce far niente
me é suficiente
o tempo que passa
persigo a fumaça
e leio os sinais
não desejo menos
não proponho nada
nem pretendo tudo
decifro o enigma
simples do viver
basta não morrer
nem querer demais
jogo e paixão
vocifero de cordeiro
mudo de palavras
olho carrancudo
quem sou eu
quem é você
aonde iremos nós?
pele morna, tez macia
um bicho adormecido
o que fazer a sós
arrancam-se as máscaras
desnudos impudicos
a derramar suores
fluídos e olores
em explosões e gozo
ao fim extenuados
jazendo entorpecidos
os corpos saciados
no leito proibido
sonhos do passado
o ar se rarefaz em ondas espirais
enquanto os pensamentos vagam
e me navego em recantos abissais
porque a pele veste uma saudade
vou recoberto de tolices matinais
não subsiste mais do que um menino
sob a epiderme deste ser que ainda sou
ou nunca fui e nem serei jamais
eu tenho que voltar no tempo etéreo
rever as épocas sofridas
e mutilar antigas dores
raizes de mim
e tudo aquilo que não sou
em vôos panorâmicos da vida
recordo em uma foto esmaecida
aonde me retrato em plena ausência
rebusco o meu futuro no passado
em sonhos antes não imaginados
nas ávidas lembranças que sonhei
CReiniano
Navegando pelo Orkut descobri uma comunidade de Ex-alunos do Colégio Cristo Rei, em Jacarezinho/PR, onde estudei nos idos de 1963 a 67. Descobri também o site daquele meu colégio de infância e início da adolescência. Um dos colegas cunhou essa expressão “CReiniano” e com ela imediatamente me identifiquei. Ter estudado no Cristo Rei é uma daquelas realidades latentes com as quais nos acostumamos e que jazem adormecidas em nosso inconsciente até que um evento as venha despertar. Nestes dias estou revisitando esta parte fundante do meu passado e resgatando e redescobrindo pessoas e situações marcantes da minha história pessoal. Confesso que a minha memória daquele tempo é um tanto difusa e não consigo aprofundar-me nos detalhes dos fatos e circunstâncias. Minha memória fotográfica é sofrível e os nomes das pessoas sempre foram para mim o calcanhar de aquiles nos meus relacionamentos. Se encontro fortuitamente uma pessoa do passado, normalmente me envergonho muito ao constatar minha amnésia em relação ao seu nome ou à circunstâncias que experimentamos na convivência pregressa.
Não me move o saudosismo mas hoje estou movido de saudades! Então vou postar uma fotografia daquela época, de qualidade prejudicada pelo tempo e capturada pela câmera do Frater Cecílio – o nosso saudoso Fratão. Para não ficar preso ao passado, posto ao lado uma foto recente. Assim, se alguém que me conheceu naquela época visitar esta página terá uma idéia do que o tempo se encarregou de realizar em minha pessoa…
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rumos e asas
como o Tom Hanks
em “Forrest Gump”
já pensei em correr
e até corri algumas léguas
costumo ser um cara esclarecido
viajo quando em vez
ando de trem, barcaça ou avião
dirijo um automóvel
ando na boléia de um caminhão
quero o deslocamento
só não me mexo
vivo plantado no lugar
quem sabe na aposentadoria
eu ganhe algumas asas
e mude algumas casas
depois que os dados rolarem
e minhas asas se alarem
encontrando a minha Atlântida
com passagem em Pasárgada
e destino Shangri-lá
impulso
meu peito vai pulsando em latência
pois hoje o meu desejo é colibri
os movimentos são alados multicores
e minha reticência em frenesi
despede-se em comboio barulhento
confesso que amanhã não sei de mim
se o ontem foi letárgico arrastado
agora posso ser o que escolhi
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