H@ vida depois dos 60

…com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas…

olhar indignado

o semblante plácido se desfaz durante a vida
e as rugas é que ocupam o seu lugar
crispadas expressões, olhares fugidios
chega um tempo em que não mentimos
porque a vida tornou-se uma mentira
onde se esconde a humanidade?!
nos rostos sardentos das crianças
cheirando cola nas sarjetas
e o seu assalto suplicante de gorjetas
como afagar estes cabelos encaracolados
sobre os olhos fuzilantes de um menino?!
praticam-se abortos clandestinos
fetos são jogados nas latrinas
não sobreviveremos impunes nessa confusão
há, tenho que acreditar, um projeto melhorado
o resgate da dignidade comprometida
mas não se nota isso nos palácios
onde se trocam a todo instante vil favores
mandando-se às favas o povo e seus humores
até quando se manterá pacato esse rebanho
a qualquer tempo ainda irá se indignar
e arremeter com iras e furores
contra os posseiros nas benesses do poder
inflando as burras desse ouro infeliz
firmando suas bundas nos castelos
sugando as tetas produtivas do país

pensado por Tarciso comente    

delirância

alma febril em corpo frio
ao lado o vácuo do vazio
de um impossível completar
as comportas jazem arriadas
em borbotões de águas movediças
insinuantes solapando as defesas
minando em perdas e danos inevitáveis
aspiro e busco sentimentos palatáveis
no rarefeito ambiente das memórias
ao balanço dos anos dilapidadas
coaxo olhando fotos do passado
revejo um príncipe encantado
o beijo desejado e o despertar
difícil distinguir real e fantasia
fulguram mil imagens delirantes
a mente se deforma entorpecida
quisera ter mil vidas
ou a escolha singular de cada dia
a reviver, a esquecer, a simular

pensado por Tarciso comente    

nocaute

blecaute da mente
sobrevem o apagão
sob os lençóis da noite
viagens desprovidas de razão
de onde vim
quem sou
pra onde vou
meu sibilar noturno
irrompe no silêncio
assim desde o crepúsculo
da flacidez dos músculos
à rigidez de morte
semi-acordar sem norte
meu sul desarvorado
vigio assombrado
a força destes medos
soturnas melodias
horrores e segredos
em noturnas agonias
sonhando despertar

pensado por Tarciso comente    

digitais

digitalizo o teu vulcão suave
retendo as lavas e erupções
tensão contínua do prazer
inimaginável sem a tua companhia
candidamente sucumbida à posse
nenhum sarcasmo nas fusões
e as múltiplas rimas do nosso deleite
pois me compreendes
feito alma gêmea em transfusão

sussura ao vento a flor
em lânguidos suspiros
despetala indolente
exalando o néctar de seus perfumes
estremece quase inconsciente
transbordam nossas taças
em lúbricos venenos
espasmos indecifráveis
e morte súbita dos gozos
ao branco dos lençóis jazemos
no indolente pós prazer e o sono

pensado por Tarciso comente    

libertas quæ sera tamen

A vida é una mas seus pontos de fuga são múltiplos. O mundo virtual é um deles. Acessar o outlook a cada meia hora ou o blog e seus comentários tornou-se uma compulsão inaceitável. Verificar o contador de acessos e a variação do humor de acordo com os seus números é puro estresse… Tornou-se para mim uma compulsão como qualquer outra gerando a dependência inevitável e um círculo vicioso desgastante. É boa a internet e os seus recursos?! Nenhuma dúvida quanto a isso. O problema é a dose em seu tamanho e intensidade.
O mundo virtual não pode se tornar a essência do viver porque é e será sempre um acessório. Por importante que seja, ainda assim um mero acessório que deve facilitar a vida e não complicá-la…
Pretendo dar o meu grito de liberdade e colocar a internet, o e-mail, o blog e tudo o mais que seja parte desse universo virtual em seu devido lugar… um acessório importante. Mas, um acessório! Se vou postar ou verificar os e-mails ou acessar sites vai depender da necessidade e da conveniência, não vou deixar que uma dependência compulsiva dirija os meus atos. Acho que me auto expliquei e… eu precisava disso como preciso olhar-me no espelho a cada manhã…

pensado por Tarciso comente    

devaneios

a mente progride em ondas
e as emoções se calam
às vezes ocorre o inverso
não cabendo em versos o que falam
emudeço de noite
e anoiteço em pleno dia
cavalgo um alazão indomado
e vôo em muitas fantasias
sou quem sou
mas quem serei?!
em terra de cego
o rei pode ser caôlho
escolho a réstea de luz
jamais gostei do escuro
se dói a palavra cortante
o silêncio pode ser pior
não cale a minha voz
nem me obrigue a falar
apenas me empreste asas
quem sabe ouse voar…

pensado por Tarciso comente    

incômodos reflexos

tem dias de brigar com o espelho
nenhuma questão estética
não foi isso desta vez
que se lixe a vaidade
parte dos cabelos branquearam
outra parte rebelou-se
já nem sei por onde anda
o processo é lento
com tempo de acostumar-se
mas… e quanto às fugas
ao esquivar-me das escolhas?
e o conformismo leniente
a omissão deslavada?
se a todos bem convenço
ao espelho quase nada
de culpa em culpa progrido
e de algum modo regrido
ao ponto de disparada

pensado por Tarciso comente    

origens

sou ítalo de além mar
de sangue luso também
carrego dos ancestrais
anfibias raças do bem
no terreno derrapante
das cinzas que me formaram
navego o barro moldado
à luz de um farol herdado
rumo a um porto mais além

pensado por Tarciso comente    

inconsistência

tendo a consistência de uma bolha de sabão
nem considero a presunção
resgato a ingenuidade adolescente
e quero interferir no enredo
tal iludido protagonista
no palco densamente poluído
ando na contramão
tergiverso
tangencio
sempre vagarosamente
feito o paquiderme
letárgico que sou
só o pensamento é agil
neste corpo frágil
que não soçobrou

pensado por Tarciso comente    

vazio

há que se fazer contas
desde as mais simplórias
como nas manhãs em padarias
às mais complexas
como as que se ousam fazer
dimensionando as fantasias
o pensamento é fugaz
um entretenimento veloz
os dedos prendem as frações
de um todo sempre escorregadio
afinal aonde foram parar as delícias
que sonhávamos na juventude?!
nossos olhos secaram
e nos vangloriamos da aridez
de que vale a magnífica estampa
de um vinho sem bouquet
sem aroma e sem sabor
já não se frui do amor
tornado só uma alegoria
em desfiles abertos
na sucessão de vidas vazias

pensado por Tarciso comente