vazo e transbordo o vaso
espraio águas ao redor
sem nunca me molhar
árido
aprecio a fluidez
dos líquidos espessos
travesso
só no meu pensar
os passos vão medidos
mesuras escondidas
nem tento decifrar
vazão
tiquetaques
na pulsão do tempo
se movem os ponteiros
acelerando minha letargia
num jogo febril e ambivalente
escolho célere os minutos e sigo lentamente
na imensidão das horas vazias
bailando preguiçoso
ao som de tiquetaques incessantes
lambendo a linha do silêncio
quase se escuta meu silêncio
após o exagero das palavras
preciso dele em meu caminho
que fique instalado por um tempo
depois retomo o burburinho
e ousarei inéditas versões
ou falarei das mesmas coisas
em novos formatos
não saberia renovar as locuções
são imutáveis minhas referências
me mudo a toda hora e volto ao mesmo
no íntimo sou místico-profético
anfíbio entre ingênuo e raposa
transmuto em borboleta a mariposa
assumo ser patético também
mas por que seria diferente?
se gosto mesmo é quando sou assim?!…
túnel do tempo
tem um jeito certo
de dizer as coisas
e não machucar
sem sangrar o leito
sem ferir o peito
sem desatinar
piso com cuidado
muita reverência
teu solo sagrado
guardo teu segredo
me faço brinquedo
pra você jogar
de rolar na grama
quando quero cama
carinhos e beijos
sopros e mordidas
nestes mil desejos
a te escravizar
ao freio contido
só finjo um gemido
pra te contentar
procuro bem longe
aonde te perdi
milênios atrás
fagulhas
A vida oscila entre movimento e letargia. No meio de um e outra pipocam pessoas e situações relevantes e irrelevantes. Cabeças fervilham em corpos ambulantes porque o pensar é ação autônoma que não cessa sequer durante o sono. E como sonhamos!… Às carências e aos excessos os sonhos são pesadelos e então acordamos. Acho que viver, afinal, é uma alternância entre as vigílias e o sono. Há tempos difíceis de nos situar. Dormimos ou vigiamos? Seria viver um sonho?! Distraídos concentramos a visão em ocorrências vazias: uma folha seca volátil pode nos fazer voar e mergulhamos. Asas ou nadadeiras?! Cabines ou escafandros?! Seríamos anfíbios?!
Tenho muitas perguntas e poucas respostas mas aprendi que o caminho se faz caminhando!… E por incrível que possa parecer eu vivo bem e gosto disso!…
sobre o bem e o mal
o que é o bem?!
tantas definições…
patrimônio
matrimônio
intensidade
condição
escolha
oposição ao mau
e ao que desune
ao que destrói
ao que machuca
eu sou do bem
e vivo bem
avesso ao mal
estou aqui
pra ser feliz
você também
e tudo bem
labirintos
âncora em movimento
queda perpendicular
anseio de paralelas
sem saber onde chegar
avançando sobre as águas
aos gemidos da maré
eu vislumbro pés enxutos
em seus passos encharcados
um lenho seco floresce
em fase crepuscular
certos sonhos juvenis
ainda ousam acordar
mergulhando no passado
presente em nenhum lugar
regresso
de volta à rotina
um tanto fora de ritmo
a malemolência nordestina
é algo contagiante
vive-se menos acelerado
mais sintonizado com
as coisas da terra
o vento, as águas, o mar
o chão pobre é pródigo
em cores, cheiros e sabores
os sentidos são testados
quase ao limite
o corpo entontece ao calor
água de coco o refrigério
de noite a brisa morna
açoita a pele
e de dia o sol causticante
nos empurra para as sombras
a natureza nos dá colo
o rústico solo
o banho de mar
e um céu cheio de estrelas
o nordeste é o lugar
e quem sabe algum dia
venha a ser o meu lugar!…
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