as famílias esperam por varões
perpetuando a espécie e o nome
fugindo ao risco da má fama
aos fados e às tempestades
todos querendo brilhos e calor
mas irrompe o frio inevitável
e forma em nós as suas crostas
cíclicas durezas sobrepostas
somente uma criança indefesa
pode invadir as rudes fortalezas
armada de um sorriso infantil
o tempo voa, cresce esse rebento
adentra o mundo adulto
passando a conhecer igual tormento
e em tantas noites mal dormidas
anela a inocência pueril
concebe em gozo extenuado
o resgate da infância em nova vida
e assim povoam essa terra
homens carentes e crianças
em sucessivas gerações
flor da infância
flor da pele
olho ao meu redor
a minha pele faz divisa
do lado de fora o mundo
do lado de dentro o fundo
e o que sobrou de mim
percebo o esqueleto
e a árvore dos músculos
diviso o meu crepúsculo
e a flacidez da carne
na alma etérea e quase infantil
lembranças efervescentes da juventude
sobreviverei à minha pele
à minha carne
e aos meus ossos carcomidos
vislumbro o eterno
aquém dos meus sentidos
e além das flores no jardim
alto olhar
estou indo
caminhante
a tatear o caminho
que não conheço de todo
mas sei qual o meu destino
e aonde vou chegar
reconheço as muitas quedas
no esforço de levantar
não me conheço como devia
nem o espelho revela
o rosto do outro lado
camufla meus sentimentos
faz eterno um só momento
não me deixa navegar
quem sou eu
quem eu seria?
quem posso ser algum dia;
se os céus não me ajudar?!…
sereno
hibernante me arrastei por léguas
só agora reassumo a nau
e vou vagar à vela
ao sopro das brisas outonais
não me move a pressa
ainda que surjam mudanças
um tanto na superfície
e nas profundezas algo mais
mas nada que nos assuste
perturbe ou afugente a paz
garoa

perdi a conta das chuvas
as matinais desafiando o sol
as vespertinas de enxurradas
e as noturnas em ventos sibilantes
mas gosto mesmo é das garoas
especialmente durante a primavera
por ver cairem gotas entre pétalas
a exalar um nectar
que febrilmente aspiro
também gosto das chuvas tropicais
em madrugadas de verão
fazendo recender da terra aroma impactante
lavas d’água levam a mente a tempos imemoriais
e me despejam lágrimas senis
vivi molhado o quanto quis
mas ando árido caçando nas vazantes
sequioso por novos temporais
luz no horizonte
estou num único lugar
que se chama hoje
me falta o tempo
e as horas se arrastam
procuro oásis no deserto
e estou perto de encontrar
já sinto o odor da relva
e a leveza da brisa adocicada
o passado é só um vácuo de momentos
dissipados até agora
busco o brilho do futuro
quase alcanço o limiar
de um dia inesperado
que vive a me esperar
porto certo de chegada
novo ponto de partida
rumo ao abraço divino
meu eterno navegar
segunda natureza
sou otimista
porque vejo a ordem da natureza
e a sucessão dos dias
sou otimista
apesar dos homens
e a corrupção que grassa
porque a maioria escondida é honesta
embora destaquem-se os pontos da escuridão
sou otimista
porque creio em Deus
e não preciso nem devo ter medo
sei que o bem triunfará
sou otimista sem volta
mesmo diante do pessimismo coletivo
pois o sol continua a iluminar
acima das nuvens carregadas
e a escuridão efêmera
conheço a luz permanente
de brilhos a irradiar
sou otimista
porque tudo tem solução
até o problema mais difícil
é fugir do conformismo
não desistir e lutar
pulsação
pulsando de ansiedade
segue a vida misteriosa
não me lembro nada antes
não sei o que vem depois
já quedei silencioso
perdido na imensidão
fui refém do pensamento
mil idéias pouca ação
eu quisera traduzir-me
mas confundi a versão
caminhei por muitas leguas
sem mover os pés do chão
é meu fado
é meu tormento
cimento da abstração
luz e sombras
assisto aos escombros
nas rotas da madrugada
fugindo furtivo de tua luz solar
faltam-me coisas simples
um ramalhete de flores
uma jóia que te enfeite
um beijo reservado
o jogo de cintura
nas horas de incerteza
replicadas e vencidas
chegadas e partidas
por sobreviver
além de meia centena
voaram os ponteiros
a vida mais parece um sonho
embora tenha cores de delírio
rolo na cama em meio a pensamentos
avanço entre decrépito e inóspito
feito paquiderme depois do cio
o que fazer com tanto que nos sobra
o que fazer sem tudo que nos falta?!
telúrico porém insípido
presunçoso e diáfano
assomo em cada manhã
após a escuridão do sono
e vejo micropartículas
dançando aos raios de sol
sob a cortina da janela
os olhos marejam à remela
que a água límpida remove
descalço iço-me de novo
e me renovo em 24 horas
nos tímpanos “feliz aniversário”!
-
Meta
memória
- janeiro 2014
- novembro 2013
- março 2013
- janeiro 2013
- dezembro 2012
- novembro 2012
- outubro 2012
- setembro 2012
- agosto 2012
- julho 2012
- junho 2012
- abril 2012
- fevereiro 2012
- dezembro 2011
- novembro 2011
- outubro 2011
- agosto 2011
- junho 2011
- maio 2011
- abril 2011
- março 2011
- fevereiro 2011
- janeiro 2011
- dezembro 2010
- novembro 2010
- outubro 2010
- setembro 2010
- agosto 2010
- julho 2010
- junho 2010
- maio 2010
- fevereiro 2010
- janeiro 2010
- dezembro 2009
- outubro 2009
- setembro 2009
- agosto 2009
- julho 2009
- junho 2009
- maio 2009
- abril 2009
- março 2009
- fevereiro 2009
- janeiro 2009
- dezembro 2008
- novembro 2008
- outubro 2008
- setembro 2008
- agosto 2008
- julho 2008
- junho 2008
- maio 2008
- abril 2008
- março 2008
- fevereiro 2008
- janeiro 2008
- dezembro 2007
- novembro 2007
- outubro 2007
- setembro 2007
- agosto 2007
- julho 2007
- junho 2007
- maio 2007
- abril 2007
- março 2007
- fevereiro 2007
- janeiro 2007
- dezembro 2006
- novembro 2006
- outubro 2006
- setembro 2006
- agosto 2006
- julho 2006
- junho 2006
- maio 2006
- abril 2006
- março 2006
- fevereiro 2006
- janeiro 2006
- dezembro 2005
- novembro 2005
- outubro 2005
- setembro 2005
- agosto 2005
- julho 2005
- junho 2005
- maio 2005
- abril 2005
- março 2005
- fevereiro 2005
- janeiro 2005