procuro alguma fonte dos versos
perscruto no horizonte fugidio
escuto o canto manso de uma brisa
talvez estejam nos pássaros em revoada
mas amanhã quero acordar bem cedo
quem sabe encontre pela madrugada
absoluta mesmo é a mediocridade
rodeia pusilânime as minhas falas
engole o brilho dos pensares
não sei o que falo
devo calar-me porque a tarde avança
e a noite surge roubando a luz do dia
eu sei – só não compreendo plenamente
os ciclos se sucedem
já me vi em fase de sorrisos
chorei múltiplas lágrimas – saudades
também de dores escondidas
festas não pontificam minha vida
gosto de celebrar a discreção
os trens são conjuntos de vagões
e cada um carrega universos
dos quais eu sou apenas um
acho que amanhã fará calor
cansei deste chover dentro de mim…
chuvas
idéias frouxas
o passo não pensado
machuca a erva verde do caminho
desarvorado tem a roupa em desalinho
de sua mente brotam ditos
palavras estranhas, sons esquisitos
nenhum compromisso
ressoa insano, profeta do profano
já abdicou das metas
vendeu o bem que possuia
uma lambreta
vagou de bicicleta
e adentrou o canto escuro da adega
sorveu o doce dos licores
imita o beija-flor
tentou o vôo e soçobrou
restou o seu sorriso estampado
tudo mais é forjado
vazio num esgar de dor
abriu suas comportas
e anda em uivos pela praia
não incomoda mais ninguém
e ninguém se incomoda
é o idiota
o tolo apalermado
mas quem olhar seus olhos
fitando o esconderijo de sua alma
encontra os porquês de sua calma
é pássaro ferido
mas anestesiado
buscando os seus sentidos
talvez os tenha encontrado
quem poderá saber?!…
tia Amélia (* 07/07/1937 *)
na constelação do bem querer
uma estrela de brilho intenso
nas principais memórias felizes
marcou com sua presença
e me ensinou tantas coisas
desde o velar-me no berço
tantos anos se passaram
meus cabelos se alvejaram
quando balbuciei as primeiras palavras
me conduzias nos primeiros passos
da casa onde me viu mal cuidado
carregou-me em zelo e afeto
ah… nossas histórias se misturam
sua lembrança é um rio de saudade
e o seu legado um oceano de ternura
várias vezes disse em vida
e ao te tornares eterna
com emoção eu repito
que te amo tia Amélia
tia Amélia (+ 11/10/2005 +)
lugares
tenho muitos lugares
alguns são reais
outros são imaginários
mas eles sempre estão
na mente, no corpo e na alma
lugares dentro e fora de mim
me fecho num lugar aberto
e enclausurado recebo os raios solares
de repente chega a noite
e me recolho num lugar fechado
para abrir as reservas dos sentidos
toco o céu de estrelas escondido
e lavo a minha alma
sentindo odores desta calma
vejo tudo claro na escuridão
sorvo um trago saboroso dos delírios
e escuto os sons do recomeço
remexo o meu avesso
e cresço rumo ao infinito
achando tão bonito
os detalhes, as minúcias e o segredos
do que há de mais prosaico na vida
e sei que ali é o meu lugar
vida bela (3)
o que surge do nada
acaba voltando para lá
mas às vezes nos arrasta
em seu retorno marginal
o concreto de todo dia
que nos agride os olhos
e faz romper os diques
transborda os mananciais da alma
após amores, humores e lágrimas
estampe-se um tímido sorriso
e o que mais for preciso
para o sol brilhar
vida bela (2)
da estima que se tem
a baixa não convém
e é tão comum em dias atuais
que se fale tão mal de si
se negam os valores verdadeiros
no afã das críticas
parece moda
por paradoxo, até parece elogio
taxar-se em inglês de mau menino
medíocre, balofo ou de moral franzina
ou que se trate um traste de vizinho
já não se vê o Autor da criação
na Sua santa alegria de saber
que tudo que criou é muito bom
então já posso me sentir de bem comigo
e quando eu sofrer não é castigo
provém sempre de escolhas que se faz
a minha própria escolha – e às vezes as alheias
refletem no caminho e no que sou
se nada sou – isso também em nada importa
o que vale é a sorte de existir no amor
e isso sim suplanta a própria morte
se vivo é porque D’Ele tenho a vida
e tudo o que há de belo no viver
pétala(11/02/03)
dum vaso descuidado algumas pétalas
a primeira delas que tomei – amarfalhada
podia ter morado em tua agenda
e marcado o nosso dia mais feliz
a segunda preservada em sua tez
macia e lúbrica de ver – à perfeição
retrato do que fomos algum dia
a terceira – intermédia – parcial
metade plena e a outra machucada
desnuda o sonho mostra a realidade
e finalmente uma quarta pétala
ou o que dela um dia havia sido
e hoje equivale a um retrato de nós
só resíduos do perfume inebriante
suavizado pelo tempo subsiste
valha-me Deus e o diga quem souber:
porque será que após os trinta
o tempo voa tão depressa?!…
vida bela
ah como a vida é bela
por isso choramos as ausências
de quem nos deixa
não suportamos o vazio
e o preenchemos de saudades
depois de muito pranto a calmaria
sorrisos tímidos enfeitam nossa face
ninguém morreu…
o fim é aparente e nunca é de verdade
olhando o céu de estrelas
algumas tem pra nós um novo brilho
um pai
uma mãe
órfãos da lucidez
quando é um filho
aí reinventamos a saudade
do nosso futuro de estrelas
antigas estações
me lembros dos grandes armazéns
e seus tons pastéis envelhecidos
o aroma do café recendia pelo ar
mas tudo me soava indiferente
os prédios insossos, as construções dolentes
não entendo hoje essa saudade
dos trilhos de ferro em traçados paralelos
o trem sinuoso e impertinente
perturbando a paisagem
com seu barulho e movimento
eu era só um adolescente
e era tão impaciente
refém das tardes modorrentas
que insistiam em se arrastar
ao som intraduzível das cigarras
distraído palmilhava os dormentes
não dá mais para voltar
e do ponto onde estou
a saudade rói
a saudade dói
dos armazéns irreais
e tantas fantasias que guardavam
chorei as partidas
sonhei as chegadas
nas muitas estações
ao apito dos trens…
eis o Bruno Augusto
O Bruno Augusto,
a quem já acostumei
chamar de “Bruninho”
sem mesmo tê-lo ainda encontrado
é a pessoinha que eu imaginava
um polaquinho lindo
parecido com as maninhas
Nana e Gaby
e eu sei que o Gê e a Angélica
são pai e mãe babões
e não poderia ser diferente
ele não é lindinho mesmo gente?!
Vou aí Bruninho pra te pegar no colo
e te apertar no peito
com todo o carinho
de tio
assim que o tempo
me levar pra perto
pois o meu coração
nunca fica longe
-
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