fotografei o que não via
quando olhei seus olhos
flagrei aquela lágrima furtiva
escondida num esboço de sorriso
joguei meus braços ao redor
enlaçando teu corpo com ternura
precisávamos falar de tantas coisas
e recordar as nossas lendas do passado
momentos irreais em mil lembranças
não éramos mais do que crianças
imaginávamos saber da vida
e era belo tudo o que sabíamos
depois do fim do dia
viria a noite, a madrugada
e um resplendente alvorecer
porque acreditávamos assim
então dançávamos colados
ao som de lânguidas melodias
roçando nossas peles mornas
embriagados em tremores de prazer
e os beijos que irrompiam
na fusão dos seres
uniam nossas vidas
esvaziando todos os vazios
preenchendo toda a sede de viver
nós éramos tão bonitos
naqueles tempos fulgurantes
quando o amanhã somente prometia
nascer de novo em lindo dia
bastava-nos somente amanhecer
banzo
Sérgio Ricardo – um Cidadão do Céu

foi tão intensa a alegria
de ver a mana sorrindo
quando nasceu meu sobrinho
bebê tão lindo e sadio
e o brilho de seus olhinhos
ao dar os primeiros passos
brincando com o irmãozinho
e aquele garoto alegre
cresceu, virou rapazinho
tão belo quanto em criança
era um rio de esperança
a encher os nossos dias
casou, gerando uma filha
fazendo as vovós corujas
enchê-la com seus carinhos
mas nem tudo deu tão certo
e os que estavam por perto
viram seus olhos vermelhos
desfazendo a sua casa
retornando ao lar materno
onde esteve por primeiro
refazendo a sua vida
ao lado da mãe querida
nosso valente guerreiro
e o sorriso que faltava
de novo lhe enfeitava
o seu rosto por inteiro
na sua filha um tesouro
e a namorada de ouro
que a sorte reservara
ficou tudo tão bonito
que parecia infinita
a alegria do porvir
e assim fez o seu passeio
brincou e correu de kart
feito um garoto na arte
de alegrar os ambientes
mas voltando para casa
para encontrar as amadas
mãe, filha, vó e namorada
teve a vida interrompida
numa curva do destino
agora o nosso menino
presente na eternidade
revela aquele sorriso
misto de sonho e bondade
pra infinita majestade
de Deus que mora no céu
enquanto nós cá na terra
vertemos o nosso pranto
que não é de desencanto
pois choramos de saudade
porque a bem da verdade
sua vida foi tão bela
e teve a missão cumprida
bem antes que a maioria
de nós na vida completa
preciso enxugar meus olhos
lembrando do seu olhar
e sua voz doce e meiga
me chamando de “tiozinho”
choro o nosso garotinho
que sempre foi e será
da dona Dirce netinho
e da Lu um filho amado
da Giulia pai adorado
da Carol todo o carinho
amigo e irmão do Eduardo…
saudoso Sérgio Ricardo!
deserto e oásis
é mais uma tese
em busca de epílogo
para um tempo vivido
em desejos impedidos
abraços arquivados
num universo de ternura
propenso a desaguar
ora estou deserto
pensamento árido
jeito melancólico
na iminência de chorar
só falo das lágrimas
pra não derramar
porém quando o faço
brota em mim oásis
e uma nova fase
a regenerar
sina poética
o poeta escreve e pensa
nem sempre pensa o que escreve
nem sempre escreve o que pensa
todavia pensa…
e escreve…
letra em trajes camuflados
de pieguice
remorso
tédio e aleivosias
rondando as entrelinhas
caminha e acelera o dia
de noite voa e vagueia
sua mente serpenteia
transbordante se esvazia
se então fenece o poeta
permanece a poesia
surreal
meditava tão tristonho
quando os olhos eu fechei
nem podia imaginar
o mergulho tão real
aliás tão surreal
que eu ainda nem sei
se é um sonho
ou já acordei…
insone
poeta versa poeta
fazendo versos reféns
a palavra não tem dono
e me apossei do verbo
tudo é tão fugaz!
o que é importante?
O que não é?!…
todos estão com calor
eu me agasalho
se parecem vivos
eu me amortalho
corro da morte e não morro
só grito por socorro
acordo esbaforido é madrugada
mambembe o coração dispara
e isso se repete tantas vezes
que já me acostumei
aliviado então me acalmo
e durmo o sono dos infantes
passado o renitente pesadelo…
cães e gatos
o soneto não avança
na minuciosa escolha das palavras
seu impacto balança
curiosos os olhos apenas olham
e algumas lágrimas ameaçam
às vezes o cansaço sobrevém
quando a caneta empaca e rosna
feito um cão injuriado
às exigências de seu dono
só à força dos agrados
acalma e se deita sob a mesa
e alguém já notou a pachorra dos cães?!
são tão volúveis
não… acho que volúveis são os gatos
mas o assunto eram sonetos
sonetos preguiçosos
parecidos como os gatos
porque os gatos são mesmo preguiçosos
por isso sempre preferi os cães…
possível regresso
Era um belo rapaz mas para mim não passava de uma criança grande de olhos castanhos.
Algum relaxo nas roupas provavelmente sem trocar há dois ou tres dias. Parecia perambular sem ter aonde ir… Perguntei seu nome, idade e a resposta foi 17. 17?
Sim, tenho 17 porque nasci em 88.
Ok, mas qual é o seu nome?
Você não sabe?!
Como eu saberia seu nome?
Quem são seus pais?
Você não sabe?!
Aonde você mora?
Acho que você sabe!
Onde está indo?
Estava procurando meu pai!
Posso ajudar você?!
Pode sim… agora preciso algo para comer.
Fomos até à padaria e o vi sorver avidamente uma jarra de frapê acompanhada de dois sanduíches de presunto e queijo. Ofereceu-me mas recusei. Era visível a sua satisfação. Ele mesmo pagou a conta e eu fiquei sem saber o que fazer, ali em sua frente. Aproximou-se de mim, abraçou-me demoradamente e disse:
pai, vamos pra casa?!…
remendo sem nexo
juntar os estilhaços
espelhos pontiagudos
muita cola e paciência
na imperfeita junção
em perfeita aderência
pelo visgo salutar
já não dá pra descolar
o rio não vai voltar
nas visões bruxoleantes
das argolas coloridas
sem partida, sem chegada
é esta a luta da vida
à lucidez desabrida
da morte que até morreu
da vida que já viveu
todos nós – tu, ele e eu…
Dia dos Pais
O que falar?!
Não sei o que dizer
Muitos pensamentos
Poucas palavras
Que não foram ditas a tempo
e permanecem caladas
Eu podia ter dito tantas vezes
Pai
Eu te amo!…
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