Sob o cobertor
tiquetaques
além do olhar
cerrar as pálpebras
em ciclos e repetições
dia e noite
vigília e sono
até que certo dia não clareie
e a noite permaneça!…
mas mesmo assim
no coração que sente
e no registro da mente
um repetido badalar
pra despertar
e adormecer
a vida lentamente
………………………….
caminhos
a postura displicente
não deixava que eu enxergasse
o que havia para ver
o que eu queria conhecer
atrás do sorriso estampado
que escondia alguma dor
mudando a cor do olhar
era o que eu podia imaginar
um abraço não cabia
nenhuma palavra fluia
nem coincidência de olhares
em direções opostas
ocupávamos um banco do vagão
na solitária contramão
sem saber aonde iríamos
cada um…
dos múltiplos silêncios
o silêncio tem forma
peso e densidade
ora mente
ora diz a verdade
ele jamais cala
e tão pouco fala
apenas silencia
no silêncio prenhe
o pensamento fala
tudo o que sabe
e adentra ao que não sabe
quase sempre fantasia
iluminando a noite
escurecendo o dia
cúmplice
simples e complexo
o seu melhor momento
é quando não há nada por dizer
num vácuo de íntimo prazer
a revelar quem somos
dos lapsospost de 19/09/2002
conquanto dormitante e em fase hibernada
o olhar amortecido alcança tangentes universos distantes
asas paralelas até então não notadas carregam minha nau
rumo a estelas intocadas de brilhos faiscantes
gélido as ultrapasso e lanço-lhes mãos esperançosas
não as abraço, não as aconchego, sequer as toco um segundo
o mundo à minha volta em frenesi – segunda-feira
todo o interesse a se depositar nas urnas
nenhum troco trago à algibeira
e o talão de cheques amassado
não há fundos
o globo todo escorrega frívolo em translação
forças descomunais o manipulam tal brinquedo
do outro lado atentados violentos como cá
no interior da África
cogumelos, crianças magérrimas e tristes, muito medo
alguns leões assustam bandos de gazelas
e aqui no interior de mim tantas mazelas
nada a dizer ao meu luar crescente de vergonha
se quase me escapam uivos solitários
somente uma fragrância insinuante a me lembrar
farejo vida – ainda existo!
chafurdança geral
na lama
na cama
na soma
na mama
e assim vai
caminhando
esse bordel
que a gente
não queria
pro Brasil
de cada dia
tendendo ao infinito
cinismo e confusões
de tudo quanto é sigla
da pólis corrompida
em malas e cuecas
ladinos e cifrões
refém do pensamento
parece fumaça subindo
de vez em quando também desce
a mente gera um pensamento
que ganha vida própria
e vai se distanciando
lanço um pensamento perseguidor
atrás do primeiro que se foi
isso é meio doido
porque a vida pede ajuda
há tanto por fazer
e o pensamento vai cuidar de tudo
então eu fecho os olhos
porém o pensamento continua
apago a luz
o pensamento ganha brilho
ele é meu pai
é meu irmão
ele é meu filho
às vezes me nauseia
vomita muitas letras
em dança desconexa
um pensamento me domina
me engana
distrai
e até ensina
me deixa enlouquecido
já ando rindo à toa
me flagro na garoa
e nem percebo o frio
meu pensamento é rio
eu sou apenas um barquinho
angústia à brasileira
estupor
por isto
por aquilo
por tudo
pára o bonde
ou desço andando
e não importa o risco
enfrento o fisco
e o fiasco
tenho asco
deste imblóglio
faltará óleo
aos pinóquios
com seus narizes
emproados
causando náuseas
ao Brasil
e a mim…
reles brasileiro
de pouco dinheiro
todavia honesto
partos de ilusões
me espanto com um sósia invisível
eu o vejo e ele a mim
acho que somos apenas um
fora de nós ninguém vê
ninguém viu
momentos de revolta
e a sonhada explosão
da Rosa de Hiroshima que floriu…
quando a minha mente navegava
no fluído rio das distrações
encontrei debaixo de um gemido
um alvo cravejado
e quase sem sentidos
um velho natimorto
já quase centenário
e não vivido
me disseram que não
mas não consigo afirmar
naquele espelho era eu
ou o esboço que sobreviveu
depois de tanto caminhar
inquietante aconchego
contêm-me um corpo
um corpo que me tem
e que o tenho eu também
então pergunto a mim mesmo
eu tenho um corpo;
eu sou um corpo;
afinal – quem sou eu?
sei onde estou
só não sei perfeitamente
aonde vou, nem quando
o futuro em bons aromas
e agradáveis sabores
extasiantes cores
resta saber aonde
e resta saber quando
enquanto alço passos no caminho
depois me vejo no teu ninho
e então a tudo esqueço
no abraço que acalma
que me sossega a alma
mergulho e adormeço…
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