ao longe algumas nuvens
quisera içar âncoras
deixando o barco flutuar
mas não aprecio atalhos
caminho em certo ritual
um passo segue outro passo
avanço lento mas seguro
a melancolia não fez mal
arrisco um tímido sorriso
piso a areia tépida e molhada
tenho sede dos abraços
que se perderam no passado
e das encruzilhadas
tive que optar
o que teria sido
fossem outras as escolhas?!
isso nem importa
não dá pra voltar
fecho os olhos
abro os braços
abraço a brisa que vem do mar…
oceano
seguindo avante
se fecho os olhos
amplio o campo de visão
e adentro um mundo particular
nele há muito sonho
há projetos e realizações
e às vezes me percebo
no limiar destes mundos
pé num, pé noutro
não é preciso decidir
não é um mais real
mais imaginário
mais especial
do que o outro
o meu mundo
é este mundo plural
composto pelos dois
embora eu seja um
e tudo seja igual
sonho acordado
acordo sonhando
mantenho o rumo
em busca do ideal
pois gosto muito de viver
reflito em sutil contentamento
e vou seguindo avante…
levantar âncoras
o vento me convida
a abandonar o cais
e em remadas fortes
rumando o alto mar
o continente se apequena
e uma paz serena
balança sem cessar
fecho meus olhos
esqueço tudo
só faço navegar
impasse decisivo
plastificado
com tintas e destempero
flui a mágoa destilada
decifrem as sua dores
não se esforcem – nem precisa…
é só um coração de isopor
e a minha mente de plástico
furada a bolha que sangra
bebido o asco leviano
dos afetos desprezados
baixa a guarda
cai o pano
guarda a seta na aljava
neste final melancólico
os aplausos viram vaias
nas vidas que continuam
basta secarem as lágrimas
vácuo
lavrar poesia crua
desnudada de temperos
fluindo em palavras livres
sentidas e ressentidas
desdenhe um olhar carente
e abraços reticentes
que não consumam fusões
fazendo dois seres serem
um despojado ninguém
com doçuras escondidas
e ternuras esboçadas
porém jamais proclamadas
no silêncio que as retêm
na expressão contundente
proferida de repente
calada quando convém
sonho acordado
Quisera voar e enxergar os campos livremente. Sobrevoar os montes, flutuar por sobre as correntezas. Queria concluir um a um os atos mais corriqueiros do viver. Cumprimentar, sorrir, dizer coisas simples e sem censuras. Porque então sinto truncado o meu agir?! Por que não digo o que penso? Por que calo o que há de melhor em mim?! Vítima do silêncio ou, quem sabe, apenas fugindo da mediocridade das minhas palavras. Por um momento quero ser um verbo. Tento e exprimo apenas a sua forma passiva. Fecho os olhos, cerro os lábios… adormeço. Volto ao começo de tudo e sonho um sonho que não cessa. Por uma noite tornei-me sonhador. Quando acordar não sei de mim. A vida é mesmo assim? Ou tudo não passa de um sonho?!
tambores
naqueles dias de medo
me disfarço em ousadia
fingindo não ter segredos
faço da noite o meu dia
Outro dia eu olhava pela janela descuidado quando, repentinamente, um inseto alado penetrou meu ouvido. Num reflexo estapeei-me produzindo um estampido. Ninguém ouviu, mas aqui dentro de mim, alguma coisa mudou… Eu mudei! Não dava, no entanto, pra filosofar com um corpo estranho e farfalhante se remexendo próximo aos meus tímpanos. Corri até a farmácia e mais com sinais do que com palavras apontei minha orelha direita enquanto gemia de medo e dor… Uma pinça e boa dose de paciência e o atendente retirou o incômodo corpo matado num pé-de-ouvido. Sorri como quem tivesse superado uma bobagem. Mas não. Era algo maior. Sobreveio a morte ao pensamento. Um estampido, um inseto – uma bala perdida, um gemido. O que teria sido de mim?! Olhei de novo pela janela… mas já não readquiri aquele olhar descuidado!…
é hoje
não sei do amanhã
e vou tentando programá-lo
o futuro é um fog iluminado
que comporta algumas sombras
estou num lugar chamado hoje
só conheço o caminho do passado
e houveram alguns passos mal dados
mas creio que acertei a maior parte
ou aqui não estaria
não seria e nem veria
mas é hoje e aqui estou
bem melhor
O bem estava ali adormecido enquanto o mal rondava sorrateiro. Quem nunca viu o sorriso dissimulado do mal atire a primeira pedra… Ao abrir a porta sem perceber que o seu assédio se instalava eu ainda não me dera conta da situação. Adentrou fantasiado e foi preciso algum tempo para reconhecê-lo. Abriu um alforje envelhecido e começou a tirar algumas de suas tralhas: um ressentimento antigo e fosco, uma dose de mau humor, algumas mentiras deslavadas envoltas em meias-verdades e falsos escrúpulos. Comecei a rir daquelas coisas e deixei-me ludibriar. Para ser sincero senti algum prazer – mórbido prazer. Mencionou pessoas que eu amava e me mostrou defeitos que eu já conhecia. Mas foi tão convincente em seus argumentos que me pareceram verdadeiros monstros por aquela análise. Então aquela atitude foi premeditada?! Não, não foi apenas premeditada. Foi preparada, ensaiada e totalmente eficaz – veja o seu deprimente estado atual. E como eu não tinha percebido isso tudo antes? Foi pura ingenuidade, meu caro… santa ingenuidade! Havia muita ironia nesta última frase e para o meu bem – que resolveu despertar ao som da palavra santa proferida por lábios tão cruéis – desfiz-me do engano e repeli o intruso que tentava plantar em mim a cizânia da discórdia. Não, definitivamente, novamente vigilante eu pensei: não sou do mal, eu sou do bem!
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